O que Sérgio Hondjakoff e Norma Bengell ensinam sobre a amizade?

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Sérgio Hondjakoff e Norma Bengell foram artistas de gerações diferentes, mas ambos foram igualmente ícones. Serginho interpretou o personagem Cabeção no seriado “Malhação”, exibido até hoje pela TV Globo. Norma interpretou a personagem Leda no filme “Os cafajestes”, produzido e exibido em 1962. Cabeção (ou Sérgio) tornou-se a figura mais icônica e querida do seriado televisivo: era um típico estudante de Ensino Médio da classe média, um aluno mediano nos estudos, divertido, paquerador com as gatinhas, simpático com os colegas de turma escolar. Enfim, o que convencionou-se chamar de boa-praça. O “nice guy”. Cara legal, em um termo em inglês também popularizado no Brasil. Cara legal, com tudo isso de bom e ruim que isso representa. Norma (ou Leda) entrou para a história da arte brasileira por protagonizar a primeira nudez frontal do cinema brasileiro. Atriz corajosa e bela mulher, virou a favorita dos sonhos eróticos dos rapazes que viveram aqueles tempos de 1950 e 1960, não teve medo de ser “sexy simbol”. Símbolo sexual, com tudo de bom e ruim que isso representa.

Conheci pessoalmente Serginho quando estava no auge da popularidade da “Malhação”. Foi em 2004, quando trabalhava em um fast-food de Copacabana, na Zona Sul do Rio (o ator realmente morava no bairro). Era o famoso dia no qual a renda da venda de um hambúrguer era revertida para ação beneficente. O artista era a atração principal para chamar o público à lanchonete. Ele apareceu, foi gentil com as garotas da loja e as crianças, disse umas breves palavras ao microfone (tinha um DJ na porta fazendo a animação e eu estava ajudando-o). Quase conheci pessoalmente Norma. Foi em 1997, quando seu segundo filme como diretora, “O Guarani”, foi colocado em cartaz. Ofereceram ingressos com desconto na escola pública onde eu estudava na época (estava na sétima série do Ensino Fundamental), existia um cinema de rua em Copacabana onde seria feito o lançamento, as meninas – e possivelmente alguns meninos em fase de descoberta – foram alvoroçadas com a possibilidade de assistirem a nudez de Marcio Garcia, que interpretava o índio Peri. Eu não fui, agora nem me recordo o motivo.

Hondjakoff fez tanto sucesso que ficou seis temporadas interpretando Cabeção. A versão meio canhestra de Carlitos teen era identificação pura com o público jovem. Em 2005, o personagem despediu-se do seriado. “Vocês são minha família, tá? Eu juro, de coração”, declarou Cabeção em sua cena de “discurso” de despedida (link aqui). Norma Bengell era uma mulher avançada e sem tempo ruim para polêmica. “Minha família são os diretores, os colegas… É uma família meio doida”, foi uma declaração concedida pela atriz exibida no programa “Arquivo N”, da GloboNews (o vídeo, infelizmente, foi retirado do YouTube).

O moinho de vento da vida tem uma pedra de mó chamada tempo. Serginho parece que ficou tão intrinsecado com Cabeção que nunca mais emplacou um papel na televisão. Em vez de destacar-se pelos (supostos) dotes dramatúrgicos, o ator virou notícia por protagonizar situações constrangedoras que a internet, com seu poder disseminador, ajudou a consagrar. Basta uma pesquisa no Google para encontrar, incluindo a mais recente: localizado em uma clínica de reabilitação irregular estourada pela polícia , negou no início, mas depois reconheceu a internação explicando que estava com vergonha pelo filho pequeno, Benjamin. Norma foi alvo de um baque: as contas da captação de recursos públicos para sua produção de “O Guarani” foram colocadas em dúvida pelo Tribunal de Contas da União (TCU) – foi uma das primeiras polêmicas envolvendo a Lei Rouanet, termo que nos dias atuais é praticamente um palavrão em conversas que tratem sobre política e cultura. Norma teve bens bloqueados, foi roubada pelo advogado, enfrentou um circo-romano para provar inocência, adoeceu, não conseguia mais andar ao final da existência, cujo encerramento de cortina ocorreu no dia 9 de outubro de 2013.

Serginho, além de demonstrar ser um pai corujíssimo com Benjamin, costuma recordar com carinho dos tempos nos quais atuava na “Malhação”, em especial no Instagram. Alguns colegas seus comentam, o público que o respeita (no qual eu me incluo) comenta: é um cara gente boa, é um cara boa-praça. O nice-guy. Mas um nice-guy que foi descoberto em uma situação terrível onde uma reação muito comum é o afastamento. Norma, a “La Bengell”, como alguns a chamavam, fez o seguinte comentário para uma funcionária que não a abandonou mesmo no momento extremamente difícil: “Nesse meio (artístico) tem muita hipocrisia” (link aqui).

São de gerações diferentes, estão em situações diferentes, mas carregam uma questão em comum: o significado real do que é realmente ter amigos. Essa questão atingiu os dois; atingiu e, de certa forma, ainda me atinge; e pode atingir qualquer um de nós, independente da malícia que algumas pessoas realmente desenvolvem ao longo da vida com relação a essa entidade comunitária chamada amizade. Uma antiga patroa que gostava muito de mim, já falecida, disse-me certa vez: “A vida é assim, às vezes a gente pensa que está cercado de um montão de amigos”. E não é bem assim. Essa descoberta, aparentemente óbvia, potencializada pelo “advento” das redes (anti)sociais, passa de geração em geração: não resta dúvida de que a pior das epifanias é quando você descobre que confundiu convivência com amizade. Ou nos enganamos pensando que tínhamos uma grande família de amigos. Para quem já viveu isso, será capaz de compreender a dor que Sérgio Hondjakoff sente e Norma Bengell sentiu. Um bom ambiente de trabalho, do Ensino Médio, de estúdio de gravação, da universidade, da escolinha de vôlei de praia, etc.

Para quem chegou até aqui, peço desculpas pelo que pode ser considerado como um libelo de descrença e pessimismo em ter amigos. Mas os casos que descrevi aqui desses dois artistas ensinam coisas a respeito da interação social: curta, mas é bom ter cuidado e, quando inexoravelmente acontecerem os afastamentos, sejam porque motivos forem, aceitarmos.

Há uma música da cantora Mercedes Sosa (1935-2009), composta pelo chileno Julio Nunhauser chamada “Todo cambia” que deveria ser declarada oficialmente um patrimônio da Humanidade pela pílula de filosofia que os primeiros versos concedem: “Cambia lo superficial / Cambia también lo profundo / Cambia el modo de pensar / Cambia todo en este mundo”. Esses versos cabem perfeitamente quando a “família de amigos” desaparece de um dia para o outro, como desapareceram para Sérgio e Norma.

Os que ficam geralmente não completam os dedos das duas mãos.

É uma arte dificílima descobrir os verdadeiros diamantes. Mas quando descobri-los, valorize mesmo. “É preciso ter amigos, porém poucos”, afirmou um conhecido jornalista. O inverso também vale. Mesmo sendo poucos, é preciso ter amigos.

Leonardo Guedes

Jornalista, vive no Rio de Janeiro. Teve passagens pelo site SRzd e pela rádio Bradesco Esportes FM. Atualmente, escreve o blog “Disse o Compositor”, sobre Música Popular Brasileira

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