Os festivais de MPB podem (e devem) voltar

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Por Leonardo Guedes

“(…) nós conhecemos uma série de artistas que são carregados do maior talento e entretanto não fazem o menor sucesso” – Wilson Simonal (1938-2000), cantor e compositor brasileiro.

A música brasileira, mais especificamente o samba e o pagode, lamentavelmente perdeu dois nomes importantes em um intervalo de dez dias em abril de 2019. No dia 20, faleceu Acyr Marques, irmão do consagrado Arlindo Cruz. Junto com o irmão, foi responsável pela composição de músicas que entraram para o rol de clássicos populares dos gêneros, como “Coisa de pele”, “Insensato destino”, “Casal sem vergonha” e “Dor de amor”. Esta última foi sucesso na voz da outra artista do samba que partiu exatos dez dias depois, no dia 30, Beth Carvalho. O primeiro, talentoso integrante de uma classe pouco reconhecida no país (o compositor), não era uma presença conhecida do grande público. Seu passamento foi registrado modestamente apenas por alguns jornais cariocas. A segunda, integrante do rol das maiores cantoras do Brasil, do mundo e até da Via Láctea – por ter um dos seus sucessos utilizados pela Agência Espacial dos EUA, a Nasa – era uma das figuras mais populares da MPB, seu falecimento foi registrado com plantões de TV e bastante divulgado pela mídia em geral.

A porta de entrada para a consagração de Beth ocorreu em 1968, no Festival Internacional da Canção realizado no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, com “Andança”, composição de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi. Era integrante de uma disputa musical no qual não foi exatamente a vencedora: “Andança” ficou em terceiro lugar. Mas graças à melodia e ao refrão vibrante, conquistou o grande público e transformou-se em hit quase-obrigatório de rodinhas de violão, karaokês e churrascarias. Repetindo: sem ser a vencedora.

E o que são os festivais? O tempo da pergunta na verdade ser: o que eram os festivais? A suspeita Wikipedia tem uma resposta (mais ou menos) precisa: “Os Festivais de Música Brasileira foram uma série de concursos de canções originais e inéditas transmitidos por algumas emissoras de televisão brasileira (TV Excelsior, TV Record, TV Rio, Rede Globo) entre os anos de 1965 a 1985*. Esses festivais consolidaram a Música Popular Brasileira, além de revelar e consolidar grandes compositores e intérpretes da música brasileira (Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Geraldo Vandré, Nara Leão, Edu Lobo, Jair Rodrigues, Tom Jobim, Oswaldo Montenegro, Jessé, Guilherme Arantes, entre outros).” (sic).

As perdas de Acyr Marques e Beth Carvalho reforçam uma expressão que virou clichê de comentários de YouTube: “os bons estão indo embora”. Além das inexoráveis despedidas do mundo físico, é por conta da percepção de perda progressiva de qualidade e criatividade no cenário musical brasileiro desde o começo da década de 1990, trocados pela extrema descartabilidade e pobreza poético-melódica que perdura nos dias atuais, questão de senso de sobrevivência e preservação de lucro da indústria fonográfica.

Todos os nomes citados até agora são insubstituíveis, obviamente. Mas sou de opinião convicta de que deveriam tentar a volta dos Festivais de MPB. Se não na telvisão (aberta ou fechada), que seja pela internet.

A separação de gostos de gêneros musicais tornou-se extremamente acentuada, algo que o conhecido pesquisador Paulo César de Araújo classificou em antiga entrevista a este jornalista como “era do nicho”. Quem conhece e curte nomes como Anitta, Gabriel Diniz e João Neto & Frederico não conhece e tem pouca intenção de conhecer nomes como Céu, Marcelo Jeneci e Filipe Catto. E vice-versa. Consolidaram-se outros clichês: “MPB é música de velho” e “O povo quer é isso mesmo, porcaria”. Teme-se que o grande público não aceite.

Com as redes sociais ainda em perspectiva e com tantas plataformas musicais ao alcance, não seria possível fazer uma tentativa? Apostar em uma reconquista do ouvido do público médio para uma música bem trabalhada e criativa? Há sim, um público ávido e numeroso pela criatividade musical e cantores, compositores e instrumentistas com o mesmo nível de talento de Beth e Acyr merecendo atenção, espaço, sucesso. Falta disposição para criar atrativos.

Enquanto a mente busca explicações com a lembrança de Beth Carvalho cantando “Andança”, sou tocado por outra realidade: nunca ouvi “Piscininha, amor”. Se me pedirem para cantar, não vou saber. É sério. Nunca me interessei em ouvir.

* Em 2000, a TV Globo realizou o “Festival da Música Brasileira” no Credicard Hall, em São Paulo. Apesar da presença de nomes destacados – como Ná Ozetti e Jorge Vercillo – o evento foi considerado um fracasso pela crítica. O vencedor foi um rock amador interpretado por um professor de informática. A música foi vaiada pelo público. O cantor afirmou nos bastidores que iria aproveitar o dinheiro do prêmio “para estudar música” (isso me foi dito por uma das cantoras que participou do festival).

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