Os que chegaram atrasados na distribuição de cérebros

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A intelectualidade sempre desprezou (e até os dias atuais continua torcendo o nariz, ainda que de forma reduzida) o humor produzido pelo comediante mexicano Roberto Gómez Bolaños (1929–2014). Criador de Chaves e Chapolin, seus personagens mais famosos, foi bastante classificado de roteirista tosco, medíocre, infantilizado demais e estimulador de bullying. Os cultuadores, que se auto-consideram “chavesmaníacos”, enxergam na obra do mexicano um humor inocente, sem apelações, carismático (por conta da cenografia mambembe e da facilidade de empatia por parte do público) e, porque não dizer, com algumas lições positivas de moral. E há quem enxergue, dentro das muitas piadas inocentes e infantis que dominam os seriados – exibidos até hoje na TV, recorde de visualizações em YouTube e Vimeo, além de material farto para bordões e memes – um pouco de Filosofia.

Para quem quiser se aprofundar mais, existe um blog que trata a respeito com mais profundidade, chamado “Chaves e a filosofia” (link aqui). Mas no artigo quero focalizar em uma cena mais específica, uma das piadas mais famosas do seriado:

O episódio com a cena mostrada no vídeo foi exibida na década de 1970, no século 20. O mundo sofreu o trauma grotesco de duas guerras mundiais, o horror do Holocausto, o processo de descolonização na África e na Ásia, a Guerra Fria entre EUA e URSS continuou a pleno vapor até o começo da década de 1990, foi dada a largada para a globalização. Começa o século 21 com um acontecimento onde, previa-se, o mundo nunca mais seria o mesmo: o ataque terrorista que derrubou as Torres Gêmeas nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001.

Os otimistas, geralmente com viés espiritualista, tendem a crer e tentar convencer de que a Humanidade tende a evoluir em cada provação acarretada pelos fenômenos históricos. De preferência, em consonância com os avanços da Ciência. Em suma, a inteligência promovendo de vez as virtudes. A mesma inteligência que deu desenvolvimento e prática ao fato de termos as fibras ópticas deslizando um número infinitesimal de informações a fim de que possamos solicitar uma pizza via delivery pela tela do celular sem muita barreira técnica ou então que eu possa ver o movimento de uma praia em Portugal ao vivo, através de uma página de webcams ao vivo pela internet.

Mas, e as relações humanas?

Havendo mesmo a evolução que tais otimistas pregam, o questionamento sobre a esfericidade do Planeta Terra seria visto como algo absolutamente risível e uma completa perda de tempo no momento em que há tanto para ser feito em matéria de superação da miséria. Mas há quem acredite. E seriamente.

São reais as pessoas que dizem ser integrantes das chamadas “classes produtoras” que acham bom quando outras pessoas perdem o poder aquisitivo financeiro, que por sua vez é perder o poder de compra, que por sua vez é não consumir, que por fim, não gera o tão desejado lucro.

Por fim, é espantoso presenciar no século 21 o quanto ainda pesam com a violência de uma marretada os males como o preconceito racial. A perplexidade é imensurável por testemunhar que ainda é real a existência de gente que avalia gente como inferior em quaisquer capacidades apenas pela cor da pele e se auto-outorgando o direito até da ofensa verbal e/ou física em um século onde posso localizar uma papelaria em Toronto pelo advento do Google Maps. Um tempo onde esse muitos otimistas imaginavam que o racismo deveria, por tantos avanços tecnológicos. Basta lembramos de vários casos: Mario Balotelli, Maju Coutinho, João Pedro e agora, George Floyd.

E então que reside a genialidade filosófica inserida no famoso seriado mexicano que os intelectuais mais posudos não conseguiram perceber. Na sequência protagonizada por Chaves, Quico e Dona Florinda, Roberto Gómez Bolaños inseriu em uma piada aparentemente simples e infantil sobre “distribuição de cérebros” uma pequena alegoria sobre a estupidez do ser humano.

Leonardo Guedes

Jornalista, vive no Rio de Janeiro. Teve passagens pelo site SRzd e pela rádio Bradesco Esportes FM. Atualmente, escreve o blog “Disse o Compositor”, sobre Música Popular Brasileira

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