Paraisópolis: moradores contestam versão da PM e denunciam agressões durante operação onde 9 morreram pisoteados

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Enquanto a PM afirma que chegou à festa perseguindo suspeitos, moradores e parentes de vítimas alegam que houve uma emboscada da Polícia contra os participantes do baile funk.

Por Rafael Bruza

Imagens gravadas por moradores de Paraisópolis na madrugada do domingo (01) mostram agressões de policiais militares a jovens desarmados e encurralados, que tentavam escapar da operação policial no pancadão conhecido como Baile da 17. A ação acabou com oito homens e uma mulher mortos por pisoteamento, durante a fuga da multidão. Há duas versões do ocorrido, uma policial e uma de parentes de vítimas e pessoas presentes na festa.

A polícia afirma que agentes da Rocam, Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas, entraram na comunidade durante uma suposta perseguição a homens armados que fugiam com motocicletas e teriam realizados disparos contra os PMs.

Ainda afirmam que, ao chegar na multidão, pessoas presentes no baile começaram a jogar garrafas e pedras em sua direção, quando agentes teriam reagido com bombas de gás lacrimogênio para dispersar as cerca de 5 mil pessoas presentes na festa.

Na confusão e correria, de acordo com a versão da PM, as nove pessoas teriam morrido pisoteadas.

Moradores e parentes de vítimas, por outro lado, alegam que houve uma emboscada da Polícia contra os participantes do baile funk. Relatam que os agentes cercaram a festa, fechando ruas que seriam rotas de fuga e obrigando os milhares de presentes a correr entre vielas apertadas.

Nestas vielas que ocorreram os pisoteamentos e consequentes mortes. Das nove pessoas que morreram, cinco eram maiores de idade e quatro maiores.

“Não teve tiro nenhum, entendeu? A Polícia invadiu a favela mesmo. Eles tão falando na TV que eles (policiais) estavam fazendo uma blitz na Avenida Hebe Camargo, quando vieram dois caras de moto atirando e a Rocam saiu à milhão atrás deles. Não foi isso. Não teve tiro nenhum ali”, relata um morador ao Independente, na condição de anonimato.

Não foram usadas armas de fogo por parte da polícia, mas sim gás lacrimogênio e armas com balas de borracha, além de cassetetes e spray de pimenta.

Outra fonte que não quis se identificar conta que um grande grupo de pessoas foi conduzido a um beco estreito, onde as pessoas da frente caíram e acabaram sendo pisadas por outras. Relata ainda que não é a primeira vez que a polícia usa a violência para dispersar um pancadão como este, mas ressaltam que na maioria das vezes deixam as pessoas correrem.

Não há imagens da perseguição dos suspeitos, que motivou a ação policial, na versão da PM.

Existem, no entanto, gravações de policiais encurralando e agredindo jovens na dispersão da festa – em outra cena, um jovem apanha no chão de um policial militar. Veja as imagens na reportagem em vídeo, acima.

Moradores também acreditam que a operação da Policia foi uma retaliação à morte do sargento Ronaldo Ruas Silva, no dia 1 de novembro.

No dia seguinte, 2 de novembro, a Polícia Militar de São Paulo realizou uma operação de busca e captura na favela. Segundo informou a corporação naquele dia 2 de novembro, “centenas de policiais militares do Policiamento de Choque, do Policiamento de Trânsito, do Comando de Aviação e dos Batalhões da zona Oeste intensificarão o policiamento para combater o tráfico no local e prender criminosos, sem previsão de término“. Um veículo blindado foi usado.

Moradores contam que a vida deles virou um “inferno” depois da morte do sargento, em Paraisópolis.

“A polícia vem aqui todo dia. É só esculacho. Fecham as ruas, fecham os bares, dão muito tapa, soco na cara. Eu quero que achem logo quem atirou no polícia, para isso tudo acabar. Se não, vai morrer mais gente”, disse um morador ao repórter Vinicius Segalla, do Diário Centro do Mundo.

Seis policiais que participaram da ação prestaram depoimento na tarde de domingo e foram liberados. As armas deles foram apreendidas.

Moradores protestaram nas ruas de Paraisópolis no domingo para pedir justiça. Um grupo carregou cartazes e cruzes e caminhou até a Avenida Giovani Gronchi. O ato foi pacífico.

Nesta segunda, a Polícia Civil começa a colher depoimentos de testemunhas da ação da PM. Serão ouvidos frequentadores do baile, parentes de vítimas e outros policiais que ajudaram a socorrer as vítimas.

Protesto de moradores em Paraisópolis exige justiça (esq.) policial agride jovem caído no chão

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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