Pela vacina, contra o genocídio: Centro do Rio sedia manifestação contra Bolsonaro

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Leonardo Guedes, do Rio de Janeiro

O Centro do Rio de Janeiro foi uma das localidades que foram cenário de manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) neste sábado, dia em que o país atingiu os 500 mil mortos vítimas de contaminação pelo coronavírus. O protesto, além de críticas à atuação do presidente na pandemia de covid-19, também apresentou outras demandas sociais. O evento foi realizado por partidos de esquerda (com a participação de PT, PSOL, PCdoB, PCB, PDT e UP), juventudes socialistas, centrais sindicais e movimentos sociais. Apesar da recomendação para aglomerações serem evitadas a fim de evitar a disseminação do coronavírus (o uso de máscara foi massivo), não ocorreu distanciamento social. Não foram registrados incidentes. Um dos integrantes da organização da manifestação, identificado como integrante do Movimento Acredito, informou à esta reportagem que a estimativa do número de participantes era de 70 mil pessoas. Até o momento da publicação, a Polícia Militar não informou sua estimativa com relação ao público presente.

A concentração da manifestação começou por volta das 10h no Monumento a Zumbi dos Palmares, na Avenida Presidente Vargas, uma das principais vias da capital fluminense. O evento em si começou por volta das 10h30. Bandeiras de partidos políticos mais faixas e cartazes com palavras de ordem contra o presidente Bolsonaro tomavam o local. Nas grades do Terreirão do Samba, tradicional ponto de cultura da cidade, havia a presença de bandeirões do movimento antifascista, cada uma representando um dos quatro grandes clubes de futebol do Rio. A do Botafogo trazia uma homenagem à cantora Beth Carvalho.

Lentamente, a marcha foi tomando conta da avenida. Agentes de segurança acompanhavam a manifestação com efetivos da Polícia Militar e da Guarda Municipal. No início da manifestação, um dos grupos mais aplaudidos foi um grupo de antigos integrantes da luta contra a Ditadura Militar no célebre ano de 1968. A ex-deputada Lúcia Souto destacou que a população não pode mais tolerar o que classifica de “desmando” na saúde pública e recordou do falecido marido, o também ex-deputado e médico Sergio Arouca: “Ele deve estar vendo que finalmente o povo brasileiro acordou e dizendo ‘viva o povo brasileiro’”.

Não apenas o presidente Jair Bolsonaro foi alvo de críticas e palavras de ordem na manifestação do Centro do Rio. Outros integrantes de governo também eram citados nos diversos cartazes empunhados pelos manifestantes: general Hamilton Mourão (vice-presidente), Augusto Aras (procurador-geral da República), Paulo Guedes (ministro da Economia), Ricardo Salles (ministro do Meio Ambiente) e Arthur Lira (presidente da Câmara dos Deputados). Outro político também alvo de protestos foi o atual governador fluminense, Claudio Castro (PL).

O vereador Chico Alencar (PSOL) falou à reportagem sobre as expectativas em relação ao evento: “Além de uma manifestação multitudinária, é uma manifestação multicor, um encontro de causas. Bolsonaro personifica todos os males, é um absurdo estarmos nos aproximando dos 500 mil mortos (pela covid-19) e só termos 13 % da população vacinada”. O parlamentar também comentou a respeito da atual reivindicação bolsonarista, a adoção do voto impresso para as eleições presidenciais de 2022: “Defendi um percentual de impressão para verificação, mas reconheço que a urna eletrônica é de grande confiabilidade. Sou da época do voto de papel, quando ocorriam muitas fraudes. É uma manobra divisionista do presidente, que quer atrapalhar como (Donald) Trump atrapalhou nos Estados Unidos”. Alencar falou no fim sobre o receio de Jair Bolsonaro tentar uma reação violenta caso não seja reeleito no ano que vem, recordando as ações de caráter terrorista que o presidente tentou realizar na sua época de militar da ativa, na década de 1980: “Ele é um golpista raiz, um golpista nato”.

Além da atuação do Governo Federal na pandemia de covid-19, outras pautas também dominaram o evento. Jorge Luis, Cesar Diniz e Rafael Quintella, funcionários de Furnas, vestiam camisetas e distribuíam panfletos contra a privatização do setor elétrico, com críticas aos senadores pelo Rio Romário Faria (PL) e Carlos Portinho (PL). “Temos esperança de esta privatização se reverta, há liminares na Justiça”, destaca Jorge Luis.

“Ele debocha de tudo e todos, ele não leva a sério a economia, o dólar sobe toda vez que ele fala merda”, afirmou a manifestante Elisa Quadros, de 35 anos, que conduzia uma bandeira mapuche (movimento indígena presente na Argentina e no Chile) e outra da Palestina. A jovem lembrou que a Argentina tem políticas progressistas mais avançadas, como a aprovação do aborto voluntário. Maria de Fátima, de 67 anos, filiada ao PT, fazia questão de participar conduzindo uma Bandeira Nacional e era elogiada pelos outros manifestantes: “É uma reação”, respondeu quando perguntada sobre o uso constante da bandeira brasileira nas manifestações bolsonaristas. “Quando o ex-presidente Lula esteve preso, participei das vigílias com a bandeira. Eles também podem usar, mas são os símbolos de todo o povo brasileiro”. Rafael, de 41 anos, enrolado em uma bandeira arco-íris, falou a respeito de como Bolsonaro lida com a questão LGBT+: “Pessimamente, porque ele abomina”. “Ele quer que a gente morra”, completou Carolina, de 38 anos, que o acompanhava.

A passeata transcorreu pela pista central da avenida com presença de instrumentos de percussão marcando o ritmo musical. Não aconteceram incidentes sérios, embora um motorista tenha gritado “já chegou a mortadela” para um grupo de militantes do PDT que se encaminhava para o evento na saída da Central do Brasil e outros tenham gritado “Mito” da janela dos carros que passavam na outra pista. Os manifestantes não revidaram às pequenas provocações e seguiram em frente.

Por volta das 12h50, a passeata chegou até a Igreja da Candelária na esquina com a Avenida Rio Branco. Ainda havia manifestantes a caminho na altura da Rua Uruguaiana. Os carros de som posicionaram-se na altura do Boulevard Olímpico e o público acabou se aglomerando para ouvir os discursos de diversas lideranças políticas e sindicais. A questão da política de segurança pública com alta letalidade da população pobre e preta também foi muito lembrada. A vereadora Marielle Franco e a decoradora Kathlen Romeu (morta recentemente durante uma operação da PM na Zona Norte do Rio), foram homenageadas. Um dos discursos mais aplaudidos foi o da atual deputada federal e ex-governadora do Rio Benedita da Silva, que pediu ao público que gritasse “Fora Bolsonaro!” cada vez que terminasse uma frase, no que foi atendida: “Com um governo de fome, miséria e desamparo, diante de 19 milhões de pessoas na miséria, queremos vacina no braço e comida no prato. Ele não pode nos tomar para suas experiências, ele é um genocida!”, afirmou a parlamentar.

A manifestação começou a dispersar-se por volta das 13h30. Panfletos distribuídos entre os presentes na passeata convocavam para uma nova manifestação contra o presidente Jair Bolsonaro no próximo dia 25 de junho, também no Centro do Rio.

Leonardo Guedes

Jornalista, vive no Rio de Janeiro. Teve passagens pelo site SRzd e pela rádio Bradesco Esportes FM. Atualmente, escreve o blog “Disse o Compositor”, sobre Música Popular Brasileira

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