PENSANDO SOBRE O MUNDO ENQUANTO OUÇO CAETANO

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O mundo parou… 

Será o fim de uma era ou de um sistema? 

Será necessário reavaliar toda a trajetória humana na terra?

          Então, vamos pensar nessa trajetória que trouxe alguns benefícios – e muita destruição e miséria para uma grande parcela da população mundial, que sobrevive nos escombros do mundo, que estão diariamente ocupados em sobreviver, que são excluídos da saúde, da educação e até da própria cultura, que fogem e se escondem de guerras onde a vida humana é trocada por um argumento de poder e capital.

          No ano passado aconteceram vários eventos estarrecedores diretamente ligados a ação do homem na natureza. Entre estes, temos o caso de Brumadinho, já que o desastre de Mariana não foi suficiente para conter a repetição de um erro. É chocante o número de vidas perdidas, é chocante toda a destruição oriunda de corporações irresponsáveis.  Nem a justificativa da “prosperidade econômica” (em defesa das práticas abusivas no meio ambiente) sustentou o prejuízo generalizado. Depois de mais de um ano foram confirmadas 272 mortes.

          Imagina você tranquilo em casa, ou na sua pequena fazenda, e de repente tudo isso vira lama. De repente você não tem pai, mãe, irmão ou filho. Tudo virou lama. E o que isso importa? A comoção em torno dessa tragédia acabou? O que aprendemos com isso? O dinheiro ou o lucro salvaram essas vidas, os animais ou a natureza que é o nosso verdadeiro sustento? Quem foram os culpados? Onde estão? E como estas pessoas que foram atingidas vivem hoje?

          Aconteceu em Minas Gerais. Aconteceu longe da realidade de milhões de pessoas, da mesma forma que acontecem guerras, fome e disputas pelo poder. Acontece também a indiferença e o esquecimento. Quem é Mariana? Onde fica Brumadinho? E a vida segue com as novas notícias da moda. E a gente não aprendeu nada.

          O tempo passou… O cotidiano da alienação desempenha seu papel de forma exemplar. Violência, exploração, morte, sub-emprego, desemprego, preconceito e pessoas estranhas continuam no poder. Tudo normal para determinados grupos que viajam para o exterior e que não são afetados pela loucura que é a vida de muitos de poucas possibilidades. No entanto, esse determinado grupo que tem dinheiro e viaja é o grupo de cidadãos que trazem consigo um novo vírus, que pelo jeito não poupa ninguém. Ricos e pobres estão em igualdade na nova tragédia do mundo e o pânico agora é geral. Mesmo assim, ainda os que tem menos sofrem mais. Só pensar no número de desabrigados que existem na cidade. Também entender que são essas pessoas que mais correm perigo. E ainda lembrando para os indiferentes que essas pessoas, se forem contaminadas, podem contaminar os outros, inclusive eu e você. E é bom lembrar que o bem estar do próximo é o seu também.

Segundo alguns estudiosos, a destruição da natureza contribui para o aparecimento de organismos que causam certos danos à saúde humana. Danos esses que acontecem há muito tempo ao redor do mundo  –  que se não me engano ainda é redondo. Mariana e Brumadinho foram um recado explícito sobre questões ambientais que mudou a vida de todos que lá viviam. Agora o coronavírus é um alerta, um convite nada sútil de repensar se toda essa usura vale mesmo a pena. Todos caminham no mesmo mundo e nem os privilegiados estão seguros.  

          Sou Ygo Ferro e essa é minha primeira contribuição para o INDEPENDENTE. Minha especialidade é escrever sobre cultura: livros, sebos, cinema, televisão, música, comportamento… Mas diante dos últimos acontecimentos resolvi escrever sobre esses dias aflitos, enquanto uma estrofe da música “O estrangeiro” do Caetano Veloso não sai da minha cabeça: 

“É chegada a hora da reeducação de alguém

Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos (…)”  

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