Policiais fingiram ser jornalistas durante operação contra o tráfico em SP

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Agentes disseram que eram repórteres da Folha para entrar no Cine Marrocos, edifício que foi alvo de ação da Polícia Militar contra o tráfico de drogas.

Informação – Rafael Bruza

Editado às 18:20 e às 21:10

Ação da Tropa de Choque da PM na região central de São Paulo / Foto – Reprodução (Hugo / Revista Brasileiros)
Ação da Tropa de Choque da PM na região central de São Paulo / Foto – Reprodução (Hugo / Revista Brasileiros)

Dois policiais fingiram ser jornalistas na última sexta-feira (05) para entrar e realizar uma operação contra tráfico de drogas no Cine Marrocos, localizado no centro de São Paulo. A informação é do repórter do jornal Folha de S. Paulo, Fabiano Maisonnave, que cobria a operação policial.

Fabiano conta em seu perfil de Facebook que os agentes conseguiram entrar no edifício dizendo que eram repórteres da Folha de S. Paulo e iriam entrevistar “uma liderança do MSTS”.

Os agentes só se apresentaram como policiais no Cine Marrocos quando entraram em um elevador e abordaram a ascensorista com uma arma, exigindo que ela os levasse às lideranças da instalação.

“No relato que ouvi da ascensorista do prédio, dois entraram dizendo que eram repórteres da Folha e que iam entrevistar uma liderança do MSTS. Um entrou no elevador com ela e, porta fechada, teria sacado o revólver e a ameaçado matar se não o levasse até o apartamento da dirigente”, relata o repórter em seu perfil de Facebook.

Pode ser inocência minha, mas me parece gravíssimo que a tomada policial do Cine Marrocos ontem, no centro de SP, tenha…

Posted by Fabiano Maisonnave on Saturday, August 6, 2016

Líderes do movimento de moradia foram presos durante a operação da PM, acusados de usar o Movimento Sem Teto de São Paulo (MSTS) para encobrir uma organização criminosa que supostamente vende drogas na região da Cracolândia, região central de São Paulo, segundo o delegado do Denarc, Ruy Ferraz. As investigações da Polícia também apontam conexão do movimento de moradia com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

O Denarc reconheceu em nota que os policiais se passaram por jornalistas durante a operação, segundo Fabiano.

“Em nota, o Denarc confirmou que os policiais se passaram por jornalistas, mas que se identificaram como “TV comunitária independente”. E negou ter apontado uma arma à ascensorista”, conta o repórter.

Ele também relata privilégios oferecidos à TV Globo na ação policial e aponta distorções nas matérias publicadas por este conglomerado de imprensa.

“Ao mesmo tempo, só a TV Globo foi autorizada a acompanhar a tomada do prédio pela Tropa de Choque. As imagens mostram apenas as armas e as drogas que a polícia diz ter encontrado. Nada sobre o fato de a operação ter quebrado o único elevador em funcionamento do prédio de 12 andares. Nenhuma palavra para os diversos relatos de truculência policial. Como a Globo não se preocupou em mostrar isso, provavelmente para não perder o privilégio da exclusividade, mais uma vez tudo fica no diz-que-disse”, explica o repórter.

A ação policial

A grande operação da Polícia de São Paulo que envolveu cerca de 600 policiais, foi realizada na sexta-feira (05) em dois locais: na Cracolândia e no Cine Marrocos, ambos no centro de São Paulo, na região da Luz.

A ação visava prender líderes do Movimento Sem Teto de São Paulo (MSTS) acusados de agir em parceria com o Primeiro Comando da Capital (PCC) para mover o tráfico de drogas na região. As suspeitas baseadas em mais de 10 mil horas de interceptação telefônica, indicam que os líderes do movimento coordenavam a venda de crack e maconha na região da Cracolândia e da Galeria do Rock, respectivamente.

Líderes do movimento de moradia foram presos com drogas, armas e munições, que estavam escondidas no Cine Marrocos, segundo notícias da imprensa.

O MSTS foi criado em 2012 por dissidentes de outros grupos de moradia da cidade.

Uma reportagem da Folha indica que cerca de 300 famílias são obrigadas a pagar R$ 200 ao MSTS para morar entre os primeiros dez andares do edifício do Cine Marrocos. A investigação policial também suspeita que esse dinheiro seja utilizado para comprar drogas.

Jornalista da CBN foi detida

Durante a operação, a jornalista da rádio CBN, Daniella Laso, foi temporariamente detida e teve ser celular apreendido por dois policiais enquanto cobria a ação da Polícia na Cracolândia. A repórter estava filmando a operação quando foi abordada por dois policiais que logo apagaram imagens registradas pela jornalista.

Ela estava com um motorista dentro de um carro e contou à Folha de S. Paulo que começou a gravar imagens quando policiais militares jogaram bombas de gás em moradores de rua que jogaram pedras nos agentes. Ela também relata que estava usando crachá de “imprensa” quando foi abordada.

“O policial pediu meu celular e eu disse que eu não poderia entregar porque era meu instrumento de trabalho. Nesse momento, o policial abriu a porta e puxou o Carlos, nosso motorista, para fora do carro. Outro policial abrir minha porta e pegou meu celular. O policial ficou muit nervoso e disse que ele iria me algemar, me jogar no chão e me retirar do carro para poder fazer a abordagem.

A repórter saiu do carro, teve documentos e celular apreendidos, foi revistada e avisada que seria levada à delegacia por “desobediência”. Ela ficou meia hora no local, quando foi liberada. Os policiais devolveram o celular, mas muitas imagens tinham sido apagadas.

A CBN, que pertence ao Grupo Globo, afirmou que está “Perplexa” com a ação contra a repórter e que repudia veementemente qualquer tentativa de impedir o trabalho da imprensa.

Em nota, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) também manifestou repúdio à conduta policial com a repórter e solicitou uma apuração rigorosa do ocorrido, com eventual punição dos responsáveis.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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