POLÍTICA

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(Crônica / Ilustração: Ygo Ferro)

Ainda no meio daquela década de 1990 existia Silva, adolescente, que se arrumava para sair. Camisa xadrez, calça jeans desbotada, cinto de couro e perfume comprado na barraca do Zé da Nonô. Nos pés uma sandália daquelas que todo mundo tem. O dinheiro da safra do feijão não deu para comprar sapatos, nem botas. Não deu nem para comer direito. E ainda agradece muito a Deus porque tem ano que não dá safra, dinheiro e muito menos comida

Também existia Gabriel: sonhador, adolescente, no seu quarto entre livros, discos e vídeos. Gostava de ficar ali, escrevendo, pensando e ouvindo os mais variados tipos de música que conseguia comprar nas lojas de outras cidades.

Silva morava com mais quatro irmãos, todos crianças barrigudas queimadas pelo sol da lavoura. Escola era coisa de gente inteligente e eles sabiam que não eram. A mãe dona-de-casa, sem as informações da dona-de-casa. O pai, patriarca, mas sem a vitalidade do patriarca. A doença levou-lhe os olhos, a gordura e as poucas palavras de sua boca.

Gabriel morava na pequena cidade junto a seus pais e sua irmã mais velha. Todos eram branquinhos, protegidos pelo protetor solar. A mãe, profissional liberal, o pai, comerciante. Tinham carro na garagem. Os filhos estudavam na cidade maior e vizinha, a irmã já estava na universidade.

A casa velha de Silva ficava no campo e na mesma pequena cidade de Gabriel. O hospital era longe. A televisão era na sala, de bateria, de antena parabólica. Nem era mais novidade a televisão estar ali. Eram muito boas aquelas histórias que apareciam de noite, cheias de agitação, pessoas muito estudadas e bonitas dentro de uma tal novela. A vida era assim: normal, repetitiva, lenta como o dia da galinha que passa horas a ciscar, bicar e ciscar sem imaginar mais nada em sua vida.         

Gabriel tinha plano de saúde. Tinha patins, mas gostava mesmo de andar de bicicleta. Tinha TV no quarto, mas viajava com seu pai para outras cidades. Também viajava só por lazer para outros estados. Via cinema, via pessoas diferentes no vídeo e no palco. Gostava de chocolates e romances fáceis.

Silva sentia que a sua vida era que nem a da galinha, mas não entendia. Arrumava-se pra ver umas meninas naquela noite. É que a novidade, sentia ele, vinha de tempos em tempos. Vinha de trio elétrico, vinha um monte de gente cantando e dançando como o povo da televisão, com suas roupas coladas, bonitas e curtas. Vinham luzes no céu e carros grandes, coloridos, de som alto na terra. E tudo mais pra felicidade daquela noite diferente, animada e iluminada. Silva sentia, mas não entendia que não estava feliz. Era época de eleições municipais.

Gabriel queria abraçar o mundo na sua imaginação. Deixava-se ficar no quarto pensando sobre quantas coisas teria no mundo para fazer. Ouvia, mas ignorava o burburinho cantado, falado e gritado do lado de fora da sua casa, por pessoas e mais pessoas que eram levadas de caminhão, camionete e carro para o comício que acontecia no interior da cidade, no campo, em algum lugar mais afastado. Era época de eleições municipais. De repente, lembrou de rapazes da sua idade, isso o preocupava. Porém, nada era grave, estava sonolento e feliz.

Silva continuou se arrumando, depois saiu da velha casa de barro e de galhos secos de árvores, vendo e ouvindo fogos estourarem no céu. De qualquer maneira, ele já tinha visto aquilo e alguma coisa na sua consciência falava-lhe que aquelas luzes que estouravam perto das estrelas não eram novidade. Desde a infância já presenciara estas festas, mas esquecia porque eram de tempos em tempos e tinha roça, tinha domingo de feira e o povo da televisão. Tinha doença do pai, tinha fome.

Gabriel, no quarto, cabelo desarrumado, às vezes sentia tédio daquele negócio que acontecia de dois em dois anos. Sempre eram as mesmas histórias, as mesmas promessas, as mesmas musiquinhas enjoadas e parodiadas tocadas exaustivamente em todo ano de eleições.  Aquela pequena cidade do interior, apesar das intrigas do negócio político, era calma e pacata, justamente o que a família de Gabriel procurava ao sair da capital do Estado.

Silva não estava feliz, mas as outras pessoas estavam. Ele queria um pouco daquela felicidade, mas a sensação de fatos repetidos mastigava sua memória e tirava aquele ar de novidade que tantas pessoas admiravam ao ver aquele povo “estudado” cantando, falando e dançando em cima de um trio elétrico.

Gabriel suspirou aliviado. As pessoas barulhentas foram embora.

Silva, na festa, encontrou amigos. A bebida era de graça. Ele abriu um sorriso, mas era falso.

Gabriel adormeceu…

Era outro dia, Silva estava doente. Passou toda manhã na cama, sem força para nada. Sua mãe preocupada foi à estrada, esperava qualquer tipo de carro que fosse à pequena cidade. Já era quase meio dia quando um trator, puxando uma carroceria, passou pelos olhos da mãe de Silva. Ela parou o transporte, pediu ajuda ao motorista e colocou Silva, enrolado em um lençol de algodão rasgado, dentro da carroceria cheia de tambores de leite e ração para gado. Eles foram juntos. A viagem demorava, o trator quebrou no caminho.

Já perto das cinco da tarde, Gabriel colocou os fones nos ouvidos. CD player na cintura, debaixo da camisa, saiu de bicicleta pela rua. Ele gostava disso. À sua frente, um pouco mais longe, dois carros em alta velocidade se aproximavam. Gabriel estranhou, mas não imaginava que palavras de desdém discursadas pelo candidato à prefeito – de modo gritado, em cima de um trio elétrico na noite anterior, na empolgação de um comício realizado em algum lugar mais afastado – inflamaram os ânimos de outros candidatos à cargos públicos, causando perseguição e defrontação entre membros dos lados opostos. Saiam de dentro dos carros rajadas de balas, troca de tiros pela rua adentro. Gabriel viu a cidade confusa, tumultuada, com gente nervosa, correndo sem saber o que fazer – esqueceu-se de tirar o fone dos ouvidos. 

Tarde demais. Tudo aconteceu de forma muito rápida. Ele, no chão da rua, agonizava. As pessoas voltando dos seus esconderijos improvisados logo viram quem era. Os dois carros indiferentes, envolvidos na agressão violenta, ultrapassaram os limites da cidade. Gabriel foi levado ao único e pequeno hospital público do lugar. Apenas uma enfermeira para atender a urgência. Sem demora, partiram para a outra cidade dentro da única ambulância da casa de saúde.

Silva chegou fraquinho. A mãe encontrou o hospital apenas vazio. O tumulto foi tão grande que não sobrou ninguém naquele pequeno hospital. A enfermeira acompanhou Gabriel. Mesmo desesperada a mulher, sozinha com seu filho, naquele lugar público vazio, não derramou uma lágrima. Seu rosto era de dureza.

Silva morreu ali, quase sozinho, segurando a mão da mãe.

Gabriel morreu no caminho, com a agulha de soro enfiada no braço, sem o conforto de alguma mão.

Ygo Ferro

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