Por que a Abin errou ao descrever possíveis terroristas nas redes sociais?

0
Computador da Agência Brasileira de Inteligência / Foto - Reprodução (Agência Brasil)
Computador da Agência Brasileira de Inteligência / Foto – Reprodução (Agência Brasil)

As orientações seguem a linha de recomendações da Europa, mas estão completamente descoladas da realidade do Brasil.

Opinião – Rafael Bruza

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) divulgou uma foto (veja “aqui”) que orienta os brasileiros a falarem com forças de segurança caso vejam pessoas excessivamente nervosas e/ou usando roupas que não encaixam com o clima, pois elas podem ser possíveis terroristas.

A intenção é positiva: é uma orientação para denunciar terroristas em potencial. Aliás, a descrição usada pela Abin é comum em países europeus que já sofreram atentados terroristas.

Em Madri, na Espanha, por exemplo, homens colocaram bombas em mochilas e as abandonaram em alguns trens da linha da cidade, que explodiram minutos depois matando quase 200 pessoas e ferindo mais de 2 mil.

Desde então as autoridades do país ibérico orienta os usuários de transporte público a avisarem a polícia ou a segurança caso vejam alguma mochila ou bolsa abandonada em trens, ônibus ou locais públicos. E também indica que os cidadãos devem avisar caso vejam alguém suspeito.

Então a orientação da Abin não é obra do acaso… Atentado é coisa séria e as pessoas perdem vidas neles!

Mas convenhamos que no caso da foto da Abin faltou compreensão da realidade brasileira.

Em um país que não nunca sofreu um atentado terrorista (ou que sofre pequenos atentados internos e infelizmente cotidianos), essa orientação tende a gerar histeria ou incentivar previsões do caos no âmbito das Olimpíadas, que nada de positivo têm a agregar aos jogos.

Tanto é que muitas pessoas veem a orientação da Abin como uma ação política disfarçada que visa cercear manifestações anti-Temer.

Ou seja, as pessoas estão considerando hipóteses que fazem sentido, mas estão descoladas da realidade.

Isso sem falar na questão social, pois milhares de pessoas (adolescentes, pessoas carentes e até mendigos) se vestem com moletons no calor e já despertam reio ou medo tanto em cidadãos quanto na Polícia.

A orientação nesse sentido incentiva confusões que podem gerar até prisões injustas ou repressões sem fundamento.

Além disso, temos um problema maior ainda: recentemente a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que transfere para a Justiça Militar o julgamento de militares que cometerem crimes dolosos (com intenção) contra civis durante as Olimpíadas da cidade maravilhosa.

Em outras palavras, o militar que matar uma pessoa (suspeita de ser terrorista, por exemplo) será julgado por um Tribunal Militar.

Críticos do projeto, como o deputado Ivan Valente, do PSOL de São Paulo, indicam que o texto, no fundo, é uma “licença para matar”.

Portanto, se somarmos a suspeita sobre todas as pessoas nervosas de moleton com a tendência de tiro fácil de nossas forças de segurança e a garantia de que militar que matar não será julgado pela Justiça comum, mas sim pela militar, encontramos um conjunto de fatores que pode favorecer enormes abusos e excessos por parte das forças de segurança.

Tudo isso para evitar um eventual atentado terrorista que seria gravíssimo, sim, mas que também pode nunca acontecer…

Então a Abin errou ao fazer a orientação, por mais que a foto seja publicada com boa intenção.

A agência agora deve agora esclarecer quais são os riscos e as provas reais de que podemos sofrer um atentado terrorista, pois precisamos de esclarecimento para se devemos de fato nos preocupar ou se só estamos falando sobre uma hipótese tão improvável quanto um projeto anticorrupção saindo do Congresso Nacional.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook

Comments are closed.