Por que as pessoas acreditam que a Operação Lava a Jato persegue o PT?

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Como uma operação que investiga políticos do PMDB, PP e até do PSDB pode ser vista como uma perseguição ao PT? Simples: a Operação Lava a Jato tem dois lados: um jurídico que investiga todos e um político que afeta principalmente o Partido dos Trabalhadores.

Análise – Por Rafael Bruza

O procurador da República, Deltan Dallagnol durante entrevista coletiva em que a Operação Lava a Jato denunciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva / Foto - Reprodução
O procurador da República, Deltan Dallagnol durante entrevista coletiva em que a Operação Lava a Jato denunciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva / Foto – Reprodução

O lado jurídico da Operação Lava a Jato, que está relacionado com o Direito e as leis, explica por que as investigações afetam principalmente o PT, PMDB e PP. Em paralelo, o lado político da operação, que inclui as relações entre as pessoas, o jogo entre os partidos os interesses de coletivos ou individuais, mostra por que tanta gente acredita que a força-tarefa de Curitiba persegue o Partido dos Trabalhadores. Vamos falar primeiramente do lado jurídico da operação.

Segundo um site do Ministério Público Federal especializado na Lava a Jato, a operação investiga esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro na Petrobras que existem há “pelo menos 10 anos”. Mas há indícios, como a delação Delcídio do Amaral, que citam esquemas de corrupção feitos no governo de Itamar Franco e FHC.

A questão é: por que diabos os procuradores e a PF não investigam governos anteriores?

Em palestra feita em março, o procurador da República e da Operação Lava Jato, Paulo Roberto Galvão de Carvalho, disse que é “juridicamente inviável” investigar governos anteriores a 2003 (primeiro ano do Governo Lula) por causa da “famigerada prescrição”.

Ou seja, os procuradores acreditam que os crimes cometidos nos governos de FHC e Itamar prescreveriam antes de seus realizadores sofrerem condenação definitiva na Justiça.

Portanto, se concentram em investigar os crimes cometidos nos Governos de Lula e Dilma.

Isso é consequência de uma escolha jurídica da operação. No universo do Direito, advogados e procuradores precisam analisar a viabilidade de uma defesa ou investigação antes de trabalhar o no caso, pois ninguém quer fazer um amplo trabalho jurídico que logo seria inútil por causa da prescrição dos crimes do caso.

Sendo assim, os procuradores analisaram a situação dos crimes na Petrobras e, por causa da “famosa prescrição” que existe no Brasil, decidiram investigar governos mais recentes.

Logo o PT, o PMDB e o PP são os principais investigados pela Lava a Jato, pois nomearam diretores de estatais nos últimos governos e os procuradores têm foco no período em que estes partidos governaram juntos.

Ponto.

Na palestra de março citada acima, o procurador, Paulo Roberto Galvão de Carvalho, também explicou por que partidos da oposição são pouco investigados.

“Não faria sentido que (o esquema) fosse colocado à disposição da oposição para que ela arrecadasse dinheiro para suas campanhas usando o governo federal. Não estou dizendo que eles (os partidos de oposição) não fazem isso. Mas imagino que se façam, fazem nos governos que controlam e não nos governos que são controlados por outro partido”, declarou.

Por tudo isso, a Operação Sangue Negro é das poucas fases da Lava a Jato que envolve crimes praticados desde 1997, durante o primeiro mandato do tucano FHC, e também por isso, os senadores Aécio Neves (PSDB-MG) e Antônio Anastasia (PSDB-MG) são os únicos tucanos que foram investigados pela força-tarefa de Curitiba até agora.

Aécio, aliás, é investigado na Operação Lava a Jato pelos crimes supostamente praticados em Furnas, estatal de Minas Gerais que ele tinha controle quando era governador. Isso corrobora a declaração acima do procurador.

Mas tudo é política. Por mais técnicos, frios e objetivos que os procuradores sejam nas investigações e denúncias, suas características, ações e palavras naturalmente são percebidas e analisadas em um contexto político por cidadãos brasileiros, inclusive os envolvidos, os simpatizantes de Dilma e os defensores do Impeachment.

Do ponto de vista político, ninguém pode negar que as investigações atingiram principalmente o Partido dos Trabalhadores, pois isso se comprova com um simples fato: enquanto Dilma sofreu o Impeachment sob acusações de corrupção dirigidas a seu partido, o PMDB e o PP, que eram do governo e também são investigados na Operação Lava a Jato, hoje, governam o país.

Além disso, outros fatos políticos protagonizados por membros da operação fortalecem a teoria da perseguição.

Sérgio Moro levantou sigilo de conversas entre Lula e autoridades com foro privilegiado (Dilma e Jaques Wagner) em um dos ápices da crise política, que ocorreu quando a então presidente petista quis nomear o ex-presidente como ministro-chefe da Casa Civil.

Deltan Dallagnol chamou Lula de “comandante máximo” de uma “propinocracia” sendo que a acusação jurídica ao ex-presidente era por corrupção passiva e lavagem de dinheiro (não formação de quadrilha).

E, depois que Gilmar Mendes fez duras críticas aos membros da força-tarefa da Lava a Jato em agosto, um procurador anônimo da operação reconheceu à Monica Bergamo que suas ações foram usadas politicamente no Impeachment de Dilma Rousseff.

“Éramos lindos até o Impeachment ser irreversível. Agora que já nos usaram, dizem chega”, afirmou o procurador sob condição de anonimato.

Um cidadão que se identifica minimamente com o PT ou que se opõe à Temer, ao PMDB e PSDB vê todos esses fatos políticos citados acima e imediatamente conclui que existe uma perseguição da Operação Lava a Jato ao partido.

Essa percepção é natural e também aconteceria se as investigações da Lava a Jato atingissem dessa forma o Bolsonaro, o Aécio ou qualquer outro líder político do país.

Então o lado político da Operação Lava a Jato deve ser levado em conta, inclusive pelo bem das investigações.

Grande Imprensa, o PMDB e o PSDB “bateram” politicamente no PT usando as investigações de Curitiba de argumento e isso, no ponto de vista de defensores de Dilma e críticos da direita, é um sinal de intenção política da operação.

Mas para uma análise objetiva e equilibrada, convém entender que há razões jurídicas que explicam por que a Operação Lava a Jato afeta mais o PT do que outros partidos, assim como há razões políticas que justificam por que as investigações “perseguem” esse partido.

A questão é o que cada um prioriza/usa e o que pode ser feito para dar mais objetividade a Operação Lava a Jato, assim como à nossas opiniões e ações.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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Discussion2 Comentários

  1. Reaça Chupando Manga

    Ridículo…a lava jato perdeu qualquer pudor e verniz de imparcialidade faz tempo. Cunha e sua esposa, sem foro privilegiado, estão sem ser incomodados, com contas identificadas no exterior abastecidas por propinas da Petrobrás. Os 10 milhões de propina para o Sérgio Guerra aliviar a CPI da Petrobrás nunca foram rastreados. A lava jato puxou o novelo das empreiteiras e levou só para a Petrobrás e Eletrobrás, ou seja, só para onde quis, e ignorou o mesmo novelo das mesmas empreiteiras quando o cordão levou aos governos estaduais Tucanos, Furnas, Cidade Administrativa de Minas, etc, que não são crimes prescritos, são recentes, e são ignorados tanto por ela quanto por esse artigo. Portanto é partidária sim, e é preciso ser muito cego para não ver.

  2. Pingback: Entre os mais investigados na Lava a Jato, apenas o PT perdeu prefeituras - Independente

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