Por que sou contra o ‘Escola sem Partido’

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A proposta supõe que todo marxismo é negativo, ignora o processo de aprendizado do aluno e ainda faz com que os defensores do projeto virem os doutrinadores que juram eliminar.

Opinião – Rafael Bruza

escola sem partido
ilustração

Qual é a diferença entre “doutrinar” e “ensinar teorias políticas”? Ou seja, como podemos diferenciar um professor que “doutrina” daquele que só “ensina” ideias de pensadores clássicos?

E outra: por que uns professores são acusados de serem “doutrinadores” enquanto outros continuam sendo educadores bem intencionados? O que um faz ser diferente do outro?

Bom, muitos dirão que essa diferença não existe, mas defensores do ‘Escola sem Partido’ encontram a resposta para essas questões em sua própria ideologia.

A direta vê a esquerda como uma corrente inteiramente totalitária e impositora de valores destrutivos para a sociedade, como a falta de religião, o controle da economia e o incentivo ao “vitimismo” de alguns coletivos sociais.

Acham que as ideias de Marx propõem apenas anulação de liberdades individuais, destruição de mecanismos de geração de riqueza do capitalismo (como a especialização do trabalho), a divisão da sociedade entre brancos, negros, indígenas, etc. e a criação de um modelo econômico que cedo ou tarde gerará escassez de recursos e até guerra.

Resumindo: nessa visão de direita, as ideias marxistas só servem para destruir o que a sociedade contemporânea construiu até hoje e o ensino de teorias marxistas nada traz de benéfico ao alunos.

Por isso, quem defende o Escola sem Partido diz que todo professor que ensina Marx fortalece uma visão distorcia e destrutiva do mundo.

Então, eliminar essa “doutrinação” virou um objetivo aparentemente positivo.

Mas, claro, trata-se de uma visão subjetiva e pessoal.

Alguns cidadãos concordam plenamente com tudo isso. Outros dizem que quem demoniza Marx está alucinando…

Primeiramente sou contra esse projeto porque ele está baseado em uma visão pessoal e individual do mundo, de gente que não é da área de educação (lembrando que o criador do Escola sem Partido é o advogado e promotor paulista, Miguel Nagib).

Mas tem mais.

Professores e professoras sabem que Marx é apenas um teórico que, como diz o nome, fez teorias.

Pessoas de direita talvez queiram me matar por dizer isso, mas esse teórico simplesmente criou ideias, termos, visões de mundo e interpretações da realidade.

Em outras palavras, Marx criou conhecimento.

E como todo professor preza pela difusão de conhecimento, alguns educadores decidem ensinar Marx para mostrar diferentes visões de mundo a seus alunos, de forma que eles sejam intelectualmente livres e capazes de escolher suas próprias visões de mundo.

Mas, calma, ninguém está preparando alunos para fazer uma Revolução Comunista!

Todo ensino é político e toda proposta é ideológica, inclusive a do ‘Escola sem Partido’, que costuma ser defendida por gente de direita (e, nesse sentido, os defensores do fim da “doutrinação marxista” podem muito bem virar os doutrinadores que juram combater).

Então é preciso discutir melhor as coisas antes de fazer denúncias imediatistas baseadas em interpretações específicas da realidade.

Obviamente existem professores mais radicais que impõem sua visão de mundo sobre os alunos.

Mas, tirando situações de excesso que devem ser observadas e corrigidas por recair em injustiças com alunos, a visão política do professor faz parte do processo de aprendizado.

Professores que defendem ideias marxistas ou que chamam o Golpe de 64 de “Revolução” também têm muito a ensinar. E o simples ensino de ideias não supõe doutrinação, até porque os jovens não formam sua opinião baseados apenas no que um único professor diz.

O Google, os pais, os amigos, as namorados, namoradas, televisão, redes sociais, mídia e todos os internautas da Internet também exercem influência na visão dos jovens.

E logo eles têm livre-arbítrio para escolher a teoria que mais lhe agrada.

Portanto, denunciar e punir um professor que difunde ideias de direita ou esquerda só serve para calar esse profissional. Isso nunca ajudará a melhorar o ensino no Brasil.

Na verdade, a proposta tende a só diminuir a difusão de conhecimento, pois professores brasileiros já foram afastados por ensinar Marx em salas de aula e essa punição criminaliza ensinos que são de esquerda, sim, mas não deixam de ser conhecimento.

O caso é: como nosso objetivo é aumentar a difusão de conhecimento, não diminuí-la, devemos incentivar os alunos a estudarem todos os teóricos da Política.

Devemos advogar para que leiam um texto de Marx, logo um de Misses, e comparem os dois.

Para que analisem as ideias de Friedman, logo de John Keynes, e que discutam se a economia de um país funciona melhor com ou sem intervenção do Estado.

E para que deixem de demonizar teorias políticas para começar a aprender com elas, tirando o melhor de cada conhecimento.

Esse último ponto, aliás, vale também para os marxistas que abominam teóricos de direita, como o próprio Mises.

Então sou contra a proposta do Escola sem Partido porque (1) ela está baseada apenas em uma visão ideológica de mundo, (2) porque vai contra a difusão de conhecimento e (3) porque pune professores com afastamento ou perda de emprego e acaba com a liberdade de ensinar, ainda por cima.

Quem defende a Escola sem Partido é justamente quem precisa vencer seus preconceitos e abrir sua mente estudando diferentes teóricos.

É esse tipo de autosuperação que faz a diferença no mundo da educação.

O resto pode muito bem ficar nas intenções ditatoriais do século XX, pois hoje a censura e a imposição da própria ideologia não têm mais nenhuma utilidade a quem defende virtudes, a verdade e o bem geral.

 

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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