Precisamos falar sobre as vaias desrespeitosas aos atletas internacionais

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Diversos estrangeiros reclamaram do comportamento do público brasileiro nas arenas das Olimpíadas do Rio de Janeiro e convenhamos que a situação merece uma autocrítica de nossa parte.

Opinião – Rafael Bruza

O francês Renaud Lavillenie chora depois de ser vaiado e ter perdido a medalha de ouro na prova de salto com vara / Foto - Reprodução
O francês Renaud Lavillenie chora depois de ser vaiado e ter perdido a medalha de ouro na prova de salto com vara / Foto – Reprodução

Como bom brasileiro, comemorei a medalha de ouro vencida por Thiago Braz no salto com vara. Mas as lágrimas do francês Renaud Lavillenie, vice-campeão, no pódio foram de partir o coração. Ele era favorito e perdeu. Coisas do esporte. Mas a situação era diferente, pois o choro do atleta não se devia apenas à derrota: o público brasileiro foi cruel com ele. E devemos falar sobre isso.

Vaiado antes de saltar e no pódio quando foi receber a medalha de prata, o francês saiu emocionalmente ferido do estádio Olímpico e disse à meios de comunicação internacionais que o público brasileiro foi “uma merda”.

“É horrível ter um público de merda assim nos Jogos Olímpicos. É um ambiente de futebol que vemos com frequência demais. A última vez que vimos isso foi quando Jesse Owens correu em 1936”, afirmou Lavillenie à uma televisão francesa.

O atleta se referiu a ao atleta estadunidense, negro, que disputou provas e foi vaiado na Alemanha nazista antes da Segunda Guerra Mundial.

Logo o francês se desculpou das afirmações, que de fato foram tão cruéis e insensatas quanto as vaias do público.

Pessoalmente acho que faltou compreensão de ambas as partes.

O francês está acostumado com um público acanhado, frio e passivo.

Mas os brasileiros são eufóricos, emocionados e torcem por seus atletas com paixão latina, diretamente ligada com o passado glorioso do futebol brasileiro.

Esse costume esportivo é excelente para vencer disputas e incentivar atletas nacionais, mas peca, e muito, no quesito “espírito olímpico”.

Se apenas um atleta tivesse problemas com as vaias, elas não seriam motivo de autocrítica. Mas foram vários estrangeiros que sofreram com o comportamento desrespeitoso do público brasileiro.

Vi com meus próprios olhos como os brasileiros caçoavam de cada desequilíbrio do estadunidense Sam Mikulak no domingo (14), durante a prova de solo da ginástica em que o Brasil ganhou medalha de prata e de bronze com Diego Hypólito e Arthur Mariano, respectivamente.

Enquanto fazia sua apresentação, Mikulak escutou o deboche do público, deu um sorriso sarcástico pensando algo como “eles estão tentando me desconcentrar” e seguiu com os movimentos normalmente, tentando, com dificuldade, manter o foco no que estava fazendo.

Como entendo pouco de ginástica, na hora até pensei que o estadunidense fosse favorito na prova e pudesse obter mais nota que os brasileiros, deixando Mariano sem a medalha de bronze (o que explicaria a pressão do público sobre ele).

Mas então vi que o atleta estava longe de ser um perigo para os brasileiros: ficou em último lugar na final e a comentarista disse que essa colocação era esperada.

Ou seja: as vaias foram gratuitas!!

Foram feitas sem nenhum sentido!

E durante a Copa do Mundo de 2014 presenciei mais cenas parecidas.

Ao desembarcar na Estação Vila Madalena, em São Paulo, onde fui comemorar a vitória do Brasil nos pênaltis contra o Chile, nas oitavas de final, vi como uma multidão vaiava, caçoava e humilhava torcedores chilenos que simplesmente tiveram a má sorte de cruzar com o público brasileiro naquela estação abarrotada.

Dias antes, tive uma péssima experiência durante o jogo da Espanha com a Austrália em Curitiba, ainda na fase de classificação.

Estava na Arena da Baixada com meu grande amigo espanhol, Carlos Fernandez, e como cidadão de dupla nacionalidade, senti vergonha do público brasileiro porque as pessoas não pararam de vaiar, menosprezar e humilhar os atletas espanhóis em nenhum momento.

Vaiaram o hino, vaiaram as quedas e cada errinho.

Considerando que a Espanha já estava eliminada da Copa, qual é o sentido de menosprezar os atletas daquele país?

Ora, amigos, a Copa do Mundo e as Olimpíadas são eventos incríveis que une dezenas de países de todos os continentes do globo em um lindo exercício de fraternidade humana que só ocorre em situações desse tipo.

Na Arena da Baixada, pedi desculpas a meu amigo espanhol, falei que “há idiotas em todos os lugares” e pedi, com vergonha, que tentasse ignorar a situação.

Mas agora isso se repete nas Olimpíadas!

Então pergunto: continuaremos sendo imaturos a ponto de vaiar os demais sem motivo e sem respeito, sem tentar entender o que é o espírito olímpico? Ou continuaremos atuando com esse enorme egocentrismo como se a destruição moral dos rivais significasse nossa vitória?

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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Discussion4 Comentários

  1. Quem deve desculpas é a torcida. O comentário do Francês sobre ser tratado como nazistas trataram o atleta negro em 1936 é muito exato e perfeito. Ele intuiu que fomos afetados por uma populismo vermelho. A verdade é que anos de discurso fascista NÓS X ELES do PT gerou este ódio aos louros. Há vídeos na internet mostrando Lula discursado que os louros são responsáveis por tudo que dá errado aqui (como se não fosse o PT o responsável!!). Um nojo o que o Lulopetismo fez a nossa nação. Nos transformou em bestas estúpidas fascistas.

    • Yara Reis Steinfatt

      Voce consegue muito bem demonstrar todo seu ódio e intolerancia contra o PT até mesmo em um assunto sobre esporte e fans brasileiros. Como o frances nao é loiro, assim como a maioria dos atletas das olimpiadas, ainda nao consegui conexar muito bem o seu comentário. Volto mais tarde, quando encontrar uma resposta para isso.