Presidente do CNI não defendeu 80 horas semanais para jornada de trabalho

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O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade / Foto - Reprodução
O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade / Foto – Reprodução

Robson Braga falou sobre “medidas duras”, mas sem indicar qual precisamente, e toda imprensa achou que ele defendia esse aumento absurdo na jornada de trabalho.

Opinião – Rafael Bruza

Um erro de discurso pode causar grandes erros de interpretação e difusão de informação.

A imprensa divulgou com grande relevância a notícia de que a CNI pretende aumentar a jornada de trabalho semanal para 60 ou 80 horas semanais.

A imprecisão sobre a quantidade de horas desse aumento da jornada de trabalho se deve a uma imprecisão do próprio presidente da CNI, Robson Braga

Ele disse que o Governo interino precisa fazer “medidas duras” na previdência e na lei trabalhista. Mas logo citou o caso da França, que aumentou a carga horária da jornada de trabalho (para 60 horas, não 80, como indicou Andrade erroneamente).

Ao falar do país europeu como exemplo e citar uma jornada de trabalho tão alta, todos na imprensa entenderam que ele argumentou a favor da implantação da carga horária de 60 ou 80 horas de trabalho semanais aqui no Brasil. Mas não foi bem isso que ele quis dizer…

Para entender o que digo, veja a declaração que fez todos pensarem que Andrade defende essa jornada de 80 horas:

“Nós aqui no Brasil temos 44 horas de trabalho semanais. As centrais sindicais tentam passar esse número para 40. A França, que tem 36 horas, passou agora para 80, a possibilidade de até 80 horas de trabalho semanal e até 12 horas diárias de trabalho. A razão disso é muito simples, é que a França perdeu a competitividade da sua indústria com relação aos outros países da Europa. Então a França está revertendo as suas medidas para criar competitividade. O mundo é assim”, disse o empresário.

Robson Braga não diz especificamente que quer subir a carga de trabalho para 80 horas semanais.

Mas, ao ver e interpretar a declaração, jornalistas da Folha, iG, Globo, UOL e até da Veja (!!), que inclusive possuem linhas editoriais relativamente próximas à do presidente da CNI, fizeram manchetes dizendo que ele defendeu uma alucinada e inconstitucional jornada de trabalho de 80 horas diárias, onde todos deveriam trabalhar 12 horas diárias nos dias de semana.

Ora, apenas na China ou em outras ditaduras essa carga horária poderia ser aplicada.

Em países democráticos, ela afronta completamente qualquer direito (inclusive a Constituição, como dissemos ontem) e nenhuma pessoa em sã consciência defenderia uma mudança tão radical, pois quem ousar defender a medida será evidentemente esculachado (como o presidente da CNI foi).

Houve, portanto, erro de precisão de Braga e consequentemente de interpretação e cobertura dos jornalistas (aliás, devo dizer que a notícia de que a CNI defende 80 horas de trabalho é especialmente atrativa para a audiência, algo que torna retificações inviáveis).

O caso é: ele defendeu a aplicação de “medidas duras” na previdência social e nas leis trabalhistas, mas sem nomear quais.

Se olharmos as intenções políticas da CNI, que aparecem reunidas, por exemplo, no documento “101 propostas para a modernização trabalhistas”, veremos que a entidade defende “medidas de flexibilização da jornada de trabalho”, como a redistribuição da carga de 44 horas para cinco dias, não seis.

Mas não há, no documento, proposta para subida de jornada de trabalho no Brasil. Muito menos para o número alucinado de 80 horas de trabalho por semana (12 por dia).

Sindicalistas entrevistados pelo Buzzfeed inclusive disseram que nunca tiveram conversa sobre aumento de jornada com a CNI e que Robson Braga provavelmente se equivocou ao falar sobre o aumento da jornada de trabalho.

Os rivais ideológicos e políticos dos empresários não teriam por que mentir nesse ponto…

Mas de fato, e como afirmaram os sindicalistas, existe resistência e oposição na CNI à proposta sindical de reduzir a carga semanal de 44 horas para 40.

Isso sim foi citado pelo presidente na infeliz fala sobre a França, como vocês podem ver acima.

Então a verdade precisa ser dita: Robson Braga não defendeu 80 horas de jornada de trabalho semanais após reunião com Michel Temer.

As propostas que a CNI defende são a manutenção das 44 horas de jornada semanais, a desoneração do trabalho formal, o controle eletrônico de atestados médicos feito pelo INSS, entre outras medidas que eles chamam de “pró-emprego”.

O presidente da CNI deu a entender que queria aumentar a jornada de trabalho por erro de precisão no discurso. E nós da imprensa difundimos o erro dele como se fosse verdade, então é minha função fazer esse esclarecimento.

Fim da polêmica.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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