A primeira manifestação contra Dilma diz muito sobre o processo de Impeachment

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Manifestantes pediram Impeachment seis dias após a reeleição de Dilma Rousseff, em manifestação que contou com a presença de Eduardo Bolsonaro e Lobão, e que acabou gerando perseguições a jornalistas nas redes sociais.

Análise – Rafael Bruza

manifestacao-na-avenida-paulista-a-favor-do-impeachment-de –dilma-no-dia-1-de-novembro“Boa tarde, reaças. É inegável que o PT constrói uma ditadura no país”, assim o empresário Paulo Martins cumprimentou os 2.500 manifestantes reunidos no vão do MASP, na Avenida Paulista, em São Paulo, no dia 1º de novembro de 2014, seis dias após a reeleição de Dilma Rousseff. Esse foi o primeiro protesto contra o mandato da petista.

Segundo a Folha de S. Paulo, os manifestantes diziam que o resultado das eleições de 2014 era “a maior fraude da história” e que o PT é “o maior câncer do Brasil”.

O ato contou com a presença do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) e do cantor Lobão.

Bolsonaro, apresentado como “alguém de uma família que vem lutando pelo Brasil”, disse que se seu pai, Jair Bolsonaro (PSC-RJ) fosse candidato a presidente, teria “fuzilado” Dilma. Lobão carregava uma bandeira do Brasil nos ombros, defendeu a recontagem dos votos das eleições presidenciais e negou que o protesto tinha a intenção de dar um golpe militar no país.

“Não tem ninguém aqui golpista”, disse o cantor ao microfone.

O ato seguiu pela avenida Brigadeiro Luiz Antônio em direção ao Parque do Ibirapuera acompanhado pela Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo.

Durante a caminhada pela Avenida Paulista, alguns moradores de edifícios estenderam camisetas vermelhas e bandeiras da campanha de Dilma Rousseff. Os manifestantes responderam gritando “vai pra Cuba”.

O perito Ricardo Molina afirmou no microfone que houve fraude nas eleições presidenciais. “As urnas são fraudáveis, qualquer um que não seja analfabeto sabe disso”, afirmou.

Alexandre Santos, um dos organizadores do ato, deu entrevista ao Jornal Da Gazeta afirmando que o pedido de Impeachment exigido pelos manifestantes dependia de maiores investigações.

“A gente quer que os casos de corrupção do Petrolão sejam apurados e, se comprovados, que a Dilma e o Lula sabiam dos esquemas, que seja feito o Impeachment dela imediatamente. A gente não aguenta mais. Não dá! É muito tempo de roubalheira”, afimou o organizador.

Perto do Monumento das Bandeiras, houve certo desentendimento entre os manifestantes.

Um grupo se posicionou a favor da chamada intervenção militar, enquanto outros eram contra essa ideia. O investigador de polícia, Sérgio Salgi, que carregava um cartaz escrito “SOS Forças Armadas, defendeu a intervenção.

“É necessária a volta o militarismo. O que vocês chamam de democracia é esse governo que está aí”, questionou o policial.

O cantor Lobão ressaltou que “ninguém é a favor de golpe”. Após uma rápida discussão, os grupos divergentes se entenderam e seguiram adiante.

“Todos aqui se respeitam, nós só queremos o bem do Brasil. Não podemos aceitar discórdia”, afirmou o empresário Paulo Martins.

O PSDB e a campanha de Aécio não incentivaram, organizaram ou deram suporte as manifestações contra a presidente Dilma, como ressaltou o vice-presidente nacional do partido Alberto Goldman.

O problema com a imprensa

Os jornais Folha de S. Paulo e Estadão cobriram a manifestação do sábado, 1º de novembro de 2014, dando destaque a pedidos de intervenção militar feito por alguns grupos de manifestantes.

Veículos da imprensa alternativa conservadora e blogueiros da revista Veja, como Felipe Moura, fizeram críticas aos repórteres Gustavo Uribe e Daniela Lima, da Folha de S. Paulo, e Ricardo Chapola, do Estadão, alegando que eles deram destaque demais aos pedidos de intervenção militar e ao investigador de polícia, Sérgio Salgi, que defendeu a intervenção militar nas entrevistas a ambos os jornais enquanto carregava o cartaz escrito “SOS Forças Armadas”.

Milhares de internautas indignados com a cobertura dos dois jornais entraram nas redes sociais dos repórteres para atacá-los. Selecionaram fotos e publicações dos profissionais para expô-los.

Os críticos afirmavam que a Folha de S. Paulo, o Estadão, a TV Globo e o programa CQC, da Rede Bandeirantes, eram veículos de imprensa “petistas” ou “pró-Dilma”.

Um dos coordenadores da campanha digital de Aécio Neves, Xico Graziano, também foi qualificado como “petralha” e “comunista” por criticar o pedido de intervenção militar feito por manifestantes do dia 1º de novembro de 2014.

Após as críticas, o jornal Folha de S. Paulo chegou a alterar o título da matéria que havia realizado. O texto jornalístico primeiramente se chamava “Ato em São Paulo pede impeachment de Dilma e intervenção militar” e logo passou a se chamar “Manifestação contra Dilma Reúne 2.500 pessoas em São Paulo”.

O primeiro título usado pela Folha de S. Paulo (esq.) e o título atual (dir.)
O primeiro título usado pela Folha de S. Paulo (esq.) e o título atual (dir.)

A Abrajo (Associação brasileira de Jornalismo Investigativo) e o Sindicado dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo divulgaram 3 notas de repúdio às ameaças sofridas pelos repórteres que cobriram a manifestação. Os comunicados alertaram que os ataques foram um “atentado à liberdade de expressão”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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