Professor diz que o ‘discurso de ódio’ move conteúdos nas redes sociais

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Fabio Malini explica que o modo de titular e entregar conteúdo nas redes sociais, inclusive do jornalismo profissional, que se polarizou na política, “passou a funcionar no modus operandi caça like da audiência ladista”, ou seja, que defende lados políticos e ideologias.

Por Rafael Bruza

Grafo feito pelo profressor

Em artigo publicado no site do Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo, o professor e coordenador do laboratório, Fabio Malini, conta que “o discurso de ódio” nas redes sociais “é o motor da viralidade política”.

Viralidade significa “qualidade de algo que é viral”. Trata-se de elementos que “tal como vírus, tem capacidade de espalhar”, segundo o Dicionário Priberam.

O professor explica que a expressão “discurso de ódio”, diz respeito tanto ao “discurso” – que tem relação com a verdade e a “denúncia do horror”, assim como com falsificação e artificialidade do real – quanto ao “ódio”, relacionado com a raiva de uma “crítica rasgada e eloquente”, mas também com uma “metralhadora cheia de mágoas” e rancores.

Malini aponta um padrão destes “discursos de ódio” virais nas redes sociais.

“São discursos que possuem ‘alvo’ muito bem definido, são dividuais (buscam polarizar) e geram a atração, ao mesmo tempo, de haters e lovers”, diz o professor no artigo.

O gráfo que aparece acima – com os nomes d’O Antagonista, do Partido Anti-PT e do Brasil 247, do outro lado em destaque – mostra os canais mais populares no Facebook que noticiaram as delações da Odebrecht entre 18 e 24 de junho deste ano.

Foram 1438 posts, que obtiveram 1.386.749 likes diretamente nessas fanpages que o grafo apresenta. São apenas os posts contendo, em seus títulos, os termos delação, delações, Odebrecht, delator, propina e caixa dois.

“Nesse grafo, temos a presença de 671.538 perfis (são os nós menores linkados aos círculos maiores). Há, em muito deles, a viralidade da raiva – contra certos políticos, e à classe política como um todo – reforçando um ativismo jornalístico, que chamo de ladismo noticioso, movido pela busca de likes de haters e lovers”, diz Fabio Malini.

“Se notarem no grafo, os veículos mais populares são aqueles que estão mais engajados em noticiar as delações a partir de um dos lado do Fla X Flu político”, explica. “Isso é revelador, pois as pessoas que curtem as postagens da área vermelha não são as mesmas que curtem as das áreas marrom e amarela. Os pontos de vistas políticos, mais à esquerda ou mais à direita, são traçados de acordo com a curtidas nos posts de um certo número de páginas. Se um usuário curte Revista Fórum e Vi o Mundo, ele faz com que essas duas páginas fiquem próximas no grafo, revelando que ambas possuem um modo ideológico parecido de empacotar a notícia. O mesmo ocorre se usuários dão like em Veja e Antagonista. A posição política dos meios é revelada, assim, por uma mega população, que, lida individualmente, na timeline de seus membros, denotar-se-ão postagens ladistas, deixando ainda mais firmes a dimensão ideológica de um simples like”.

A hipótese de que megapopulações lidam com as mesmas postagens “ladistas” nas redes sociais lembram uma controvérsia das manifestações de junho de 2013, segundo o professor.

Segundo explica, o mercado de notícias online começou a ser disputado por “meios alternativos”, principalmente no Facebook. Redações disseram, inicialmente, que jornalismo não é ativismo, argumentando que “o produto jornalístico é definido pela multiplicidade de visões de mundo que o abrigam”, explica Malini, que vê uma controversa na situação, em que ambos – jornalismo e ativismo – viraram “ladistas”.

“O mídiativista, dizem as salas de redação, é marcado pela defesa de um ponto de vista de suas causas. E o jornalismo, ao contrário, recusa qualquer univocidade, pois sua narrativa passa pela multiplicidade de vozes, pela apreensão em ouvir os outros. De outro lado, o ativista reivindica narrar com a multidão, sendo ela própria uma multiplicidade de vozes que a prática empresarial jornalística evitaria ouvir, vendo o povão de longe, num caminho até de criminalização de fatos ligados à indignação popular, que não mais vê nas salas de redação o local privilegiado de difusão das questões populares. Essa cisão, mais tarde, quando atravessada pelo atual FlaxFlu político brasileiro, alcança uma síntese que o deturpa nos dois lados da controversa. Nas bolhas dos feeds do Facebook, o ativismo vira sinônimo de defesa irrestrita de um dos lados (vira povo). E o jornalismo, defesa elitista do status quo. Viram, ambos, ‘ladistas’”, diz Malini.

“Esse grafo reforça o ladismo noticioso. Os mídia mais visíveis no feed são os que inserem nos enunciados de seus posts uma intensidade maior de ladismo. E esse ladismo carrega uma estrutura sintática oriunda da linguagem do discurso de ódio – lembrando: da sua tensão entre um discurso de indignação versus um discurso impulsivo de linchamento. E essa linguagem parece ser aquela capaz de fazer compartilhar mais rápido, tendo mais aderência ao desejo ladista também da audiência. E isso acaba por gerar um ciclo vicioso, por demandar mais enunciados ladistas do que aqueles que buscam lidar com as contradições do movimento da realidade – talvez residam aqui os chamados textões dos isentões -, meios e audiências editoralizam a polarização, que ganham curtidas e compartilhamentos, tornando-se mais frequentes nos feeds dos usuários, e assim a roda é movida no Facebook”.

“Os maiores nós são veículos predominantemente nativos da internet (ou mesmo do Facebook). Muitos deles apenas “reeditam” notícias originadas no “jornalismo acadêmico” (esse que reivindica uma multiplicidade de visões de mundo buscando moderação editorial). Contudo, com a migração dos likes para as “notícias ladistas”, o modo de titular e entregar o conteúdo, até desse jornalismo acadêmico, passou a funcionar no modus operandi caça like da audiência ladista. Entrarão ainda mais no ciclo das bolhas ideologicas, produzindo mais polarização”, diz o texto de Malini. “Por isso que a maior dificuldade do mundo das fake news não está apenas em restringir a difusão de notícias de fontes consideradas ‘duvidosas’, mas estancar o ladismo que a polarização – comum na política – não cessa de multiplicar nas redes sociais”, conclui o professor, que classifica a situação como “complexa” e promete “continuar a seguir estes rastros”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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