Quando uma queda boba vira um dos assuntos mais falados do país

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A imprensa deu grande destaque à queda de Bolsonaro do carro de som, mas desde quando esse fato é de interesse público?

Momento em que Bolsonaro pula na plateia / Foto - Reprodução
Momento em que Bolsonaro pula na plateia / Foto – Reprodução

Opinião – Rafael Bruza

Adoro piadas e memes da Internet. Eles já são parte de nossa cultura, sem dúvida. Mas não entendo como a imprensa pôde dar tanta importância à queda de Bolsonaro daquela kombi que servia de palanque…

Ele pulou no estilo “mosh” e a plateia não o segurou. Só isso.

É um fato bobo, banal e inútil para o país, mas foi notícia em praticamente todo portal e toda página de rede social que trabalha com política.

Alguns selecionaram ‘memes’ e piadas de internautas para montar um conjunto que, como sempre, mostrou como a criatividade humorística é uma qualidade do brasileiro.

Nisso não vejo grande problema, pois a notícia é a reação do público, não a queda inútil.

Mas outros cobriram o fato como notícia séria. “Bolsonaro se joga no público, mas cai no chão; veja o vídeo”, dizem manchetes que ainda repercutem nesta quinta-feira (07).

E ainda há aqueles que politizaram o caso, dando a entender que o deputado não é querido por seu público, que foi menosprezado pela plateia ou vai saber…

Enfim, a queda pode ser engraçada e provocativa entre cidadãos, mas falando em termos jornalísticos e de prioridades da opinião pública, dar atenção a esse tema é sinal de que valores distorcidos e prioridades questionáveis.

Mostra que nas redações valorizamos demais a quantidade de cliques, likes e shares. E na sociedade, priorizamos a provocação, a picuinha e a rivalidade infantil.

Um país que tem os problemas que nós temos não pode se dar ao luxo de perder tempo com bobeiras dessas.

Na quarta-feira (06), Temer se encontrou com líderes do Congresso e juntos decidiram tirar a urgência do pacote anticorrupção criado por Dilma Rousseff.

O pacote foi para uma comissão especial que já analisava as chamadas “10 medidas anticorrupção do Ministério Público”, levantadas como bandeira nas manifestações pró-Impeachment, mas negligenciadas após afastamento da presidente.

Para justificar, o líder do Governo na Câmara, André Moura (PSC-SE) disse que “é mais apropriado que os projetos (pacote anticorrupção de Dilma e medidas do MP) tramitem juntos para fazer um debate mais amplo, com audiências públicas”, disse .

Ora, selecionar que tipo de exigência “das ruas” merece ser acelerada e qual “precisa ser discutida com mais calma” é de um egocentrismo e cinismo sem tamanho.

O próprio Impeachment precisa ser discutido com mais calma, pois é um assunto complexo que gera absoluta divergência na sociedade.

Mas, nele, vocês tiveram uma pressa nunca antes vista, não é, senhores, congressistas?

Trabalharam até mesmo em fim de semana. Olha só.

O que quero dizer é que ao invés de análises e críticas de fatos relevantes como este, a Internet dedicou boa parte de sua energia e tempo em rir ou defender Bolsonaro de uma queda sem significado.

Por estas e outras, nossa imprensa está numa profunda crise de credibilidade, que vai muito além da transição digital do setor.

E o pior é que Bolsonaro ganha muita visibilidade ao aparecer na mídia desse tipo, por mais que seja numa situação “ridícula”.

Foi assim, entre críticas e defesas na opinião pública, que ele virou o deputado com maior número de votos no Estado do Rio de Janeiro, com mais de 464 mil pessoas apertando o “confirma” na fotinho dele.

E agora, ele tem cerca de 5% de votos seguros em praticamente toda pesquisa de opinião. Em abril, o Ibope disse que 11% das pessoas votariam nele, apesar de 34% dos entrevistados não o conhecer.

Então, no fundo, Bolsonaro se beneficia da situação e não foi ele que fez papel de bobo nessa história.

Fomos nós, jornalistas, internautas e cidadãos, que rimos das inutilidades deles, políticos, enquanto evitamos o necessário debate de assuntos de interesse público em nosso querido Brasil.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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