Quem não tem competência, não se estabelece

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“Eu não gosto de mimimi, se gostasse comprava um gato gago (…) por fim o bem sempre vence o mal”.

Por Leonardo Guedes

            Um tipo de procedimento no cotidiano que anda quase que completamente fora de moda nos últimos tempos (talvez desde a Revolução Francesa) chamada bom senso, indica algo que mesmo os completamente leigos no ofício de informar a sociedade sabem: um momento certíssimo onde um apresentador de telejornal não deve demonstrar irreverência sob qualquer hipótese é durante a cobertura de um cataclismo com número elevado de vítimas.

            No dia 25 de janeiro de 2019, o rompimento de uma barragem de extração de minérios pertencente à empresa Vale na cidade mineira de Brumadinho deixou um rastro de devastação: 259 cadáveres localizados, 11 desaparecidos e um altíssimo prejuízo ambiental e humanitário. O fato trágico mobilizou o trabalho da imprensa em geral, mas uma cobertura em especial chamou a atenção exatamente pela já citada ausência do bom senso: o apresentador do (considerado tecnicamente) telejornal Primeiro Impacto – exibido nas manhãs do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) – identificado como Marcos Paulo Ribeiro de Morais e intitulado (sabe lá como) de “Marcão do Povo”, começou a fazer irreverências durante um link ao vivo com a repórter Márcia Dantas. Sonoplastia de gargalhadas, piadas sobre o ator cinematográfico Leonardo DiCaprio, comentários fora de hora sobre o cordão que a repórter estava usando no pescoço. Márcia estava fazendo sua entrada direto de Brumadinho, tendo ao seu redor o local tomado pela lama que ceifou vidas. Um tanto quanto desajeitada, a repórter solicitava que Marcos atentasse para a seriedade que o momento exigia.

            Uma vez lançado o vídeo com a insólita ocorrência no universo parajudiciário das redes sociais, a maioria dos que viram condenaram a atitude do apresentador. O fato relatado é intermediário com outros dois episódios protagonizados pelo mesmo. Quando atuava na RecordTV, referiu-se a cantora Ludmilla como “pobre e macaca”. A artista entrou com queixa de racismo; Marcos alega que a expressão “macaca” é um regionalismo que não faz distinção racial. Já no SBT, mais de um ano após a “descontração” na cobertura da tragédia de Brumadinho, Marcos faz sugestão sobre a criação de “campos de concentração” para o combate da pandemia de coronavírus, corrente na data de publicação deste texto. “Ideia” baseada nos conflitos calcados nos interesses econômicos atingidos pelas medidas de isolamento social para evitar o aumento no número de pessoas contaminadas. Campo de concentração, uma forma de reunião que remete a tudo de mais indigno e desrespeitoso que podem atingir os seres vivos e remete também aos piores momentos da Humanidade, como o nazismo, sugerido dentro de uma concessão de TV como concessionário é judeu, ainda que não-praticante de ritos. Críticas, pedidos de escusas cerca de uma semana depois (com texto de tom justificativo que, sugere-se, foi produzido menos pelo receio de perder comissões publicitárias do que por ter dito um absurdo), um afastamento do vídeo providencial e, no fim, retorno ao comando do telejornal, serelepe e dizendo as expressões que abrem este texto. Surgiu a informação de que os funcionários do Jornalismo da emissora realizaram um abaixo-assinado pedindo seu afastamento definitivo, o que não ocorreu.

            Tudo o que foi relatado é uma batida de frente com uma definição clássica a respeito do exercício do Jornalismo feito por Claudio Abramo (1923-1987): “O Jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter”, mas o direcionamento do foco da análise é para outra expressão, atribuída à chamada sabedoria popular: “Quem não tem competência, não se estabelece”. A associação cognitiva imediata quando a frase é lembrada no substantivo “competência” tem relação com valores tidos por virtuosos e positivos, principalmente o da qualidade. Atitudes como a de Marcos provam que essa ligação não é, obrigatoriamente, uma comprovação científica. Em um mundo ideal, seria uma ultrapassagem de limites sugerir “campo de concentração”, mas isso não aconteceu.

            Na questão jornalística-televisiva atual, tomou forma e ganhou espaço em alguns veículos o “apresentador-engraçadista”, que busca o humor custe o ridículo que custar. É uma situação que encontra semelhança na vida além das redações, em qualquer ramo profissional: indivíduo é desprovido de inteligência e um básico de cultura, exerce mal as funções, pratica ações por pura maldade e psicopatia, atua com cinismo, é insuportável e execrável no trato com as pessoas? Aí é que entra a questão da tal “competência” para se estabelecer. Pesam os interesses escusos. Capacidade de bajulação da pessoa certa no lugar certo, certeza de compensações sobretudo as econômicas, valorização de algum atrativo físico em detrimento da real capacidade de quem pode fazer melhor, etc. As hipóteses são várias. A inversão no sentido da palavra.

            A ideia geral é traduzida por uma sentença que entrou para a História: a opinião que é atribuída ao presidente americano Franklin Roosevelt com relação ao apoio ao tenebroso ditador nicaraguense Anastasio Somoza García já nos primórdios da Guerra Fria entre capitalismo e comunismo. O autor toma a liberdade de trocar o palavrão supostamente proferido por Roosevelt por outro menos virulento: “Fulano pode ser um incompetente. Mas é o nosso incompetente”.

           Para Ludmilla, os sobreviventes de Brumadinho e os que sofrem com a covid-19, vibrações de esperança.

Leonardo Guedes é jornalista com passagens pelo SRZD e Rádio Bradesco Esportes FM.

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