‘Recessão e raiva da corrupção fazem direita brasileira crescer, diz The Guardian

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Em artigo feito em São Paulo, o jornal inglês apresenta cidadãos que querem a volta da Ditadura Militar, comenta vínculos entre o MBL e um grupo financiado pelo irmãos Kotch e traça um perfil crítico do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Por Rafael Bruza

Captura do artigo do jornal inglês The Guardian, sobre a ascenção da direita brasileira / A captura foi editada por questões estéticas

O jornal inglês The Guardian, publicou um artigo de Dom Philips nesta quarta-feira (26) que apresenta a “ascensão” na direita brasileira desde o Impeachment de Dilma Rousseff. O jornal afirma que a “recessão, o crime, o desencanto generalizado e a raiva” de escândalos de corrupção estão por trás desta crescida conservadora.

“A economia do Brasil está lutando para sair da recessão. Há 14 milhões de pessoas desempregadas no país. O crime violento está aumentando, enquanto os escândalos do governo de Dilma já compõem a administração de seu sucessor, Michel Temer. Os brasileiros estão cada vez mais desiludidos e olhando para os liberais, cristãos evangélicos e de direita populistas mercado livre”, diz o artigo.

O texto também diz que o vereador e coordenador do MBL, Fernando Holiday (DEM) “é dos poucos políticos negros abertamente homossexuais” no país e afirma que ele ficou famoso graças a vídeos virais em que aparecia “atacando o sistema de ação afirmativa do Brasil para negros, indígenas e pobres”.

Holiday se elegeu dois meses depois do Impeachment de Dilma Rousseff pelo Democratas (DEM) – descrito pelo The Guardian como uma sigla “conservadora” ligada ao Movimento Brasil Livre (MBL) em São Paulo.

O artigo logo informa que o MBL é “um grupo de direita que agiu nas manifestações massivas de rua contra a corrupção revelada pela Operação Lava Jato”.

Nas mesmas eleições municipais que elegeram Fernando Holiday, afirma o texto, o “empresário conservador” e ex-apresentador do reality show O Aprendiz, João Doria, virou prefeito da maior cidade da América Latina – São Paulo – e Marcelo Crivella, descrito como “um pastor evangélico fundamentalista”, venceu as eleições municipais do Rio de Janeiro.

O pastor evangélico Marcelo Crivella, Os prefeitos do Rio de Janeiro e São Paulo

O jornal conclui este trecho da análise sobre “o cenário nacional” falando sobre o deputado federal Jair Bolsonaro, “um ex-capitão do exército” que está em segundo lugar das pesquisas para as eleições de 2018.

“Ele tem um projeto agressivo de direita anti-crime”, diz o jornal The Guardian. “Defende pontos de vista homofóbicos e elogiou a Ditadura Militar do Brasil, que executou centenas de oponentes políticos e torturou outros milhares de cidadãos, incluindo Rousseff, uma ex-guerrilheira marxista”.

O deputado federal, Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ovacionado no Aeroporto Castro Pinto, na Grande João Pessoa, em novembro de 2015

Segundo o jornal inglês, Bolsonaro pretende nomear militares para o Governo Federal caso seja eleito presidente em 2018 e atualmente é aplaudido em aeroportos, onde as pessoas gritam seu nome e comemoram o fato de ele não ter sido associado a escândalos de corrupção – “ao contrário de seus colegas do Congresso”, diz o texto.

Além disso, “os partidários de Bolsonaro dizem que ele se sentiu legitimado pelos protestos pró-impeachment”, diz o jornal The Guardian.

“Antes disso era impossível você se posicionar como alguém de direita no Brasil”, argumentou ao jornal Douglas Garcia, de 23 anos, que foi entrevistado pelo The Guardian por ser um dos organizadores do “Direita São Paulo”, um grupo no Facebook que tem 185 mil seguidores e apoia Jair Bolsonaro para a Presidência da República em 2018.

MBL e os irmãos Koch

Depois de traçar um perfil crítico de Bolsonaro, o texto informa que alguns membros do Movimento Brasil Livre receberam formação do grupo liberal Students for Liberty (Estudantes pela Liberdade), uma “rede de defesa do mercado livre que faz parte da Rede Atlas (Atlas Network)”, uma organização estadunidense sem fins lucrativos que “espalha ideias de livre mercado”.

 “O Students for Liberty”, diz o texto, “recebeu financiamento de Charles Koch, que com seu irmão David, controla a Koch Industries – a grande companhia dos Estados Unidos do setor de combustíveis fósseis e petroquímica”.

O fundador do MBL, Fábio Ostermann, de Porto Alegre, também foi membro da filial brasileira do Students for Liberty, segundo The Guardian.

Por três meses ele estudou no Instituto Koch para estudos de humanas (Institute For Humane Studies).

“Eles dão formação básica, uma introdução sobre como organizar um think tank, como divulgar ideias liberais”, disse Ostermann ao The Guardian. “Foi uma educação de primeiro mundo que me deu a capacidade analítica além da realidade brasileira”.

“Assim como Charles Koch” afirma o jornal, “Ostermann minimiza os riscos da mudança climática mundial”. Ele abandonou o MBL porque o grupo apoia o Governo de Michel Temer, que Ostermann considera corrupto. Mas o fundador do movimento concorda com os atuais líderes do MBL em um ponto, segundo o artigo: não querem apoiar o retorno de uma Ditadura Militar.

Um dos coordenadores do MBL, Kim Kataguiri / Foto – Reprodução

Bolsonaro e Ditadura

Grupo defende intervenção militar em protesto feito em Brasília, em 2015 / Foto – Reprodução (Valter Campanato/ Agência Brasil)

“Mas”, diz o artigo, “outros brasileiros de direita apoiam a volta da Ditadura Militar”.

“Toda segunda-feira à noite, um grupo de cerca de 40 pessoas se reúne em uma sala ornamentada, iluminada por um candelabro no Private Club SP” para defender a “intervenção militar”.

“(Quando) você tem ladrões no Estado, tem que chamar a polícia. Quem são os policiais do povo? É o Exército”, disse o advogado e produtor rural, Antônio Paiva, de 68 anos, ao The Guardian, antes do início de uma das reuniões. Paiva também argumentou que um conselho de dois civis e um oficial militar deve assumir o governo do Brasil por até dois anos e gradualmente reintroduzir a Democracia, a partir de eleições municipais.

O jornal também falou com a professora da rede pública, Edna Leite, de 61 anos, presente no encontro no Private Club SP. Ela disse que a Lei de Anistia de 1979 permitiu o retorno de muitos líderes de esquerda na sociedade, como Dilma Rousseff.

“Você não pode recuperar estas pessoas para a sociedade”, disse a senhora ao jornal inglês. “Elimine-os”.

O The Guardian afirma que os defensores explícitos da Ditadura Militar são “minoria” no Brasil, mas “aparentemente estão crescendo”.

O apoio ao sistema democrático caiu de 54% em 2015 para 32%, segundo o Barômetro Latino, que realiza pesquisas anuais em todo continente. A defesa da Ditadura Militar, a sua vez, está crescendo e sendo expresso na sociedade brasileira, disse ao jornal o magnata da publicidade Enio Mainardi, de 82 anos. A página do magnata no Facebook conta com quase 20 mil seguidores, e é usada para defender pontos de vista de direita e atacar a esquerda.

Enio Mainardi disse que se opôs à Ditadura Militar quando era jovem, mas relata que agora está mudando de ideia.

“Eu não tinha noção, que não estava claro, que o regime militar estava certo”, disse Enio Mainardi, que é pai do jornalista Diogo Mainardi, um dos fundadores do site O Antagonista, que veicula conteúdos de direita defensores da Operação Lava Jato e do juiz Sérgio Moro, além de ser crítico do Partido dos Trabalhadores.

Segundo o artigo, defensores de Lula e Dilma Rousseff dizem que os ricos odeiam o Partido dos Trabalhadores porque esta sigla fez mais ações a favor dos cidadãos mais pobres do que qualquer outro partido brasileiro. Mas Mainardi afirmou ao jornal que o PT foi corrompido pelo poder.

“Você verá o ódio se ler o que as pessoas dizem no Facebook”, disse Mainardi ao jornal.

Segundo o The Guardian, a esposa do jornalista, a aposentada Teresa Mainardi, de 64 anos, disse que apoia a intervenção militar no Brasil para controlar a vasta população brasileira.

O casal Mainardi também relatou ao jornal inglês que votariam em Bolsonaro em uma eventual disputa com Lula em 2018. Os dos políticos atualmente lideram as pesquisas de intenção de voto, mas no início de julho, Lula foi condenado a quase 10 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, que poderiam torna-lo inelegível, diz o artigo.

Bolsonaro e o meio ambiente

Segundo The Guardian, “nenhum dos candidatos de direita são “boas notícias” para a floresta Amazônica, que teve 29% no aumento do desmatamento no ano passado.

O texto destaca uma entrevista de Bolsonaro concedida ao jornal O Estado de S. Paulo em abril de 2017, onde o deputado afirmou que tem a intenção de “limpar mais terra da floresta para produzir alimentos para a crescente população mundial”.

O deputado também “espera” que um ambientalista não se torne presidente da República, conclui o texto do The Guardian sobre o Brasil.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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