Refém do olavismo, Jair Bolsonaro cava a própria sepultura

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Por André Henrique

Não partiu das elites econômicas e políticas a iniciativa para derrubar Jair Bolsonaro, como propalam Olavo de Carvalho e seus acólitos bolsonaristas. A maior parte da burguesia a esta altura não quer instabilidade e arroubos ideológicos, mas pragmatismo e estabilidade, para ganhar dinheiro.

Mesmo a encrenca com a Rede Globo foi produto da decisão de Jair Bolsonaro de controlar a torneira que irriga com recursos públicos a emissora. A desobrigação de empresas publicarem balancetes afetou a saúde financeira dos jornais impressos. Bolsonaro brada que tomou tais medidas por amor ao erário, entretanto, aumentou as verbas estatais para Rede TV, Record, Band e SBT. Tal seletivismo comprova que as escolhas de Bolsonaro são retaliativas, portanto, se há crise entre setores da mídia e o governo, o bolsonarismo a semeou.  

As elites reivindicavam do governo Bolsonaro-Guedes reformas estruturais em benefício do mercado financeiro – a mais importante delas, a da previdência, o governo entregou, ainda que com protagonismo do Congresso. Isto é, Jair Bolsonaro teve (e ainda tem) as condições para construir consensos com setores da burguesia nacional e o Congresso, mas, entrelaçado de corpo e alma ao olavismo, caminha na direção do dissenso.  

Nem a implicação atabalhoada da TV Globo do nome do presidente ao assassinato de Marielle Franco causou tantos danos ao governo quanto a fala absurda de Eduardo Bolsonaro defendendo AI-5 como instrumento de combate a possíveis manifestações no Brasil como as que ocorrem no Chile. Partidos, juízes, prefeitos, senadores, deputados, entidades – à esquerda e à direita – condenaram Eduardo Bolsonaro.

Vis-à-vis Olavo de Carvalho conclama em suas redes sociais as forças armadas e defende a criminalização dos partidos e lideranças de esquerda e da mídia nacional, que segundo o “filósofo”, é uma organização criminosa. Os dissidentes do bolsonarismo recebem o mesmo tratamento. É como se no Brasil apenas prestassem as olavettes e os bolsonaros. Tais narrativas autodestrutivas promovem os antagonismos ao bolsonarismo, dividem esse campo e ampliam os da oposição.  

O fascismo e o nazismo também partiam de generalizações para discriminar coletividades e legitimar perseguições, arbitrariedades e genocídios, em um tempo em que havia base social para tanto. Como governar reivindicando para si o monopólio das virtudes sem ter uma base social historicamente construída e minimamente organizada? O PSL é um saco de gatos. Ao primeiro sinal de fraqueza do governo e diante das mais pueris divergências, os oportunistas pulam do barco que os levaram a um mandato.

Não há organicidade nem militância, e não se constrói uma coisa e outra da noite para o dia. Isso tudo torna mais surreal os movimentos de Jair Bolsonaro que o levam aceleradamente no colo Olavo de Carvalho para o isolamento político. Mesmo ainda sem consenso entre as elites e a oposição sobre o destino do presidente, o mesmo segue a cavar a própria sepultura.

E por quê? Pelo DNA autoritário do bolsonarismo e do olavismo. O medo de Bolsonaro e seus filhotes de que se repita no Brasil o que acontece no Chile é cínico e açodado. Açodado porque não há garantias conjunturais. Cínico porque os bolsonaros torcem para o país convulsionar porque aí o presidente poderia se apresentar como a solução para reestabelecer a ordem, exigindo licenças para utilizar dispositivos autoritários.

Vale ressaltar que o Brasil e o mundo de 2019 não oferecem solo fértil para o autoritarismo como o Brasil da década de 60 aos militares e menos ainda como a Itália fascista dos anos 20 ao Duce e a Alemanha dos anos 20 e 30 ao führer. Jair Bolsonaro sonha com o cenário descrito sem a certeza de que contaria com o beneplácito das forças armadas, é um tiro no escuro e um cálculo político suicida.

Mas loucura, ódio, conflito e suicídio político são traços do fascismo presentes em muitos aspectos do olavismo e do bolsonarismo. Vai daí por que Ciro Gomes não exagerou ao alertar em suas redes sociais Eduardo Bolsonaro, citando o fim do ditador italiano Benito Mussolini, executado a tiros pelos partisans e seu cadáver linchado em praça pública pela população. Não se trata de ameaça, mas de alerta, para quem debilmente aposta no acirramento de antagonismos e em convulsões sociais.

O Brasil não chegará a tanto, por diferenças conjunturais, mas não se pode subestimar o potencial destrutivo de uma conjuntura na qual setores da burguesia e das forças armadas resolveram bailar de mãos dadas com o fascismo por conta do medinho do petismo. Se as condições não favorecem felizmente velhos autoritarismos, os novos podem brotar disfarçados de bom-mocismo, mascarados por “regras democráticas” e sob nova direção.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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