A renúncia de Eduardo Cunha é pura estratégia

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O peemedebista quer salvar seu mandato e emplacar um presidente da Câmara que seja favorável a ele e aos interesses do Governo interino de Michel Temer.

O deputado Eduardo Cunha lê seu discurso de renúncia / Foto - Reprodução
O deputado Eduardo Cunha lê seu discurso de renúncia / Foto – Reprodução

Análise – Rafael Bruza

Eduardo Cunha chorou ao anunciar sua renúncia na tarde desta quinta-feira (07). Mas as lágrimas do deputado ocultam a estratégia clara desenhada por ele e aliados.

Deixando gestos simbólicos de lado, a renúncia de Cunha tem dois objetivos imediatos: (1) tentar salvar seu mandato com decisão favorável na Comissão de Constituição e Justiça e (2) abrir espaço para que a Casa eleja um presidente alinhado às intenções do Governo interino, tendo em vista que Waldir Maranhão (PP – MA) “tem agido de forma errática” segundo O Globo, “cancelando sessões de votação e prejudicando os interesses do Governo Temer”.

Então há sintonia de interesses em torno da renúncia e não é à toa que há mais de um mês aliados pedem que Cunha abandone a presidência por vontade própria.

A questão foi discutida entre o deputado e o presidente interino, Michel Temer, no encontro que tiveram no domingo (26 de maio). E dias depois, aliados do ex-presidente da Câmara diziam que ele renunciaria caso tivesse uma vitória na Comissão de Constituição e Justiça.

O relator dessa comissão, Ronaldo Fonseca (Pros – DF), considerado aliado de Cunha, recomendou anular a votação do parecer do Conselho de Ética que aprovou no início de junho a cassação total do deputado.

Mas ainda não há garantias de que o mandato de Cunha será salvo, o que atrasou a renúncia do ex-presidente da Câmara.

De qualquer forma, o recurso pode ser votado na próxima segunda-feira (11).

Segundo estimativas de aliados de Cunha, cerca de 30 deputados votarão a favor do deputado na CCJ. São necessários 34 votos.

Tendo em vista que o Governo quer um novo presidente, Cunha já usa a renúncia para diminuir a pressão contra si e viabilizar apoio entre deputados governistas, tentando, assim a salvação de seu mandato com uma decisão favorável na Comissão de Constituição e Justiça que obrigaria a realização de uma nova votação no Conselho de Ética.

Ou seja, Cunha renuncia, deixa aliados de Temer satisfeitos e assim tem mais chances de vitória na CCJ.

Essa vitória daria tempo e margem de manobra a Eduardo Cunha, pois a votação teria que ser remarcada e a cassação via plenário demoraria muito mais do que o previsto, garantindo espaço para articulações políticas que podem ser decisivas para o mandato do deputado.

Existe, portanto, e como já foi dito, uma sintonia de interesses: o Governo e seus aliados não querem Waldir Maranhão na presidência da Câmara e Cunha precisa de apoio na CCJ. Um ajuda o outro e assim ambos podem cumprir seus objetivos.

Dá para acreditar nas lágrimas do deputado?

A questão da presidência

O Governo interino não quer Waldir Maranhão (PP – MA) na presidência da Câmara. Nunca quis. Desde a tentativa de anulação da votação do Impeachment, Maranhão coleciona medidas que contrariam os interesses do Governo. Então retirá-lo dali virou uma prioridade para Temer e a pressão que pedia renúncia de Eduardo Cunha seguia a lógica de que “a Câmara precisa de um novo presidente” (justamente para favorecer os interesses do Governo interino).

Com a renúncia de Cunha ao comando da Câmara, o presidente interino, Waldir Maranhão, tem prazo de até cinco sessões para realizar uma eleição que preencha o cargo de presidente até fevereiro de 2017, quando acabaria o mandato de Cunha na presidência e ocorreria outra votação.

Então a renúncia de Cunha já visa a troca no comando da Câmara, com a eleição de um deputado do “centrão” favorável aos interesses do Governo e que seja, claro, aliado de Eduardo Cunha.

Os nomes cotados são Espiridião Amim (PP – SC), Jovair Arantes (PTB – GO) e Rogério Rosso (PSD – DF). Todos são próximos do ex-presidente da casa.

E a estratégia aparentemente vem dando certo. A questão é se Eduardo Cunha é capaz de articular apoio suficiente para obter vitória na Comissão de Constituição e Justiça e logo na nova votação no Conselho de Ética.

Mas isso só o futuro pode dizer.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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