Revoltadas, vítimas da tragédia do edifício questionam secretário da Prefeitura

0

(Veja vídeo) Antigos moradores do edifício Wilton Paes de Almeida cobraram providências do secretário municipal de Habitação Fernando Chucre, que esteve presente no evento.

Por Rafael Bruza

Vereadores, movimentos sociais e antigos moradores do edifício Wilton Paes de Almeida, que caiu no início de maio, em São Paulo, estiveram em Audiência Pública na Câmara dos Vereadores nesta quinta-feira (17) para debater as políticas de moradia e a situação das ocupações na cidade. Demonstrando irritação e revolta, as vítimas da tragédia questionaram o secretário de Habitação do Governo municipal do PSDB, Fernando Chucre, sobre o número de cadastrados no programa de auxílio-moradia. Também pediram dados que informem a quantidade de imigrantes desaparecidos na tragédia e exigiram moradia digna aos cidadãos.

Quase vinte dias depois da tragédia, algumas famílias seguem acampadas no Largo do Paissandu, onde o edifício estava localizado.

As famílias reclamam que diversos moradores do edifício não constam no cadastro da Prefeitura e, portanto, não puderam receber o benefício.

Esta é a situação da peruana Gredy Canaquiri Yume.

“Viajei ao interior de São Paulo. Uma coordenadora disse que havia colocado meu nome no cadastro, mas depois que aconteceu isso (a tragédia), vi que meu nome não estava lá”, relatou.

O secretário de Habitação, Fernando Chucre, afirmou que a Prefeitura tem problemas para pagar o benefício às últimas famílias porque outros moradores de ocupação e de rua se deslocaram ao Largo do Paissandu e fingiram ser vítimas da tragédia nas últimas semanas para receber doações ou o auxílio-moradia da Prefeitura.

“Tem outra quantidade de famílias que alega que mora lá. A gente tem que comprovar isso, não podemos sair distribuindo auxílio-moradia para qualquer pessoa”, disse o secretário aos moradores.

A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), do Governo do Estado – controlado pelo PSDB, assim como a Prefeitura – cadastrou 144 famílias que moravam no edifício para recebimento de auxílio-moradia.

No primeiro mês, o órgão paga R$ 1,2 mil a cada família. Do segundo até o 12º mês após a tragédia, o benefício será de R$ 400.

Depois deste período, a Prefeitura de São Paulo assumirá os pagamentos do benefício mantendo o valor de R$ 400.

Chucre alega que havia cerca de 170 famílias residindo no edifício, segundo dados de março deste ano, e prometeu que a Prefeitura fará uma análise individual dos cidadãos que pediram auxílio-moradia.

A Prefeitura inicialmente usou dados “descasados” e teve problemas para contabilizar o número de pessoas que residia no edifício.

Ele também informou que há outras formas de conseguir identificar os moradores do edifício – através do programa Saúde da Família, por exemplo.

A audiência pública desta quinta foi organizada pelo gabinete do vereador Toninho Verspoli (PSOL) e teve presença de Eduardo Suplicy (PT), defensores públicos, ativistas e moradores do edifício Wilton Paes de Almeida.

Imigrantes no edifício

Lideranças e moradores afirmam que a Prefeitura não tem dados corretos sobre o número de imigrantes que residiam no edifício Wilton Paes de Almeida e cobram providências para que estes cidadãos sejam identificados.

O ativista Alex Vargem afirmou que muitos estrangeiros da África e Haiti costumam se distanciar de brasileiros no convívio em moradias e ressalta que há pelo menos 20 moradores estrangeiros do edifício Wilton Paes de Almeida que ainda não foram localizados pelas autoridades.

“Muitos imigrantes nunca avisaram seus familiares que viviam em ocupação na América Latina, naquelas condições. Então pode ter gente que morreu na tragédia, sem que sua família soubesse, afirmou.

Outras vítimas da tragédia demonstraram preocupação com a possibilidade de que estes estrangeiros não sejam contabilizados no número de mortos no edifício.

Queixas políticas

Em diversos momentos do evento, lideranças de movimentos de moradia, defensores e ativistas ressaltaram que as vítimas da tragédia não são culpados pelo incêndio e queda do edifício.

“Quem ocupa não tem culpa”, afirmaram os cidadãos presentes através do microfone e de faixas.

“Essa tragédia é reflexo de um descaso histórico em relação a uma política habitacional consistente neste país”, declarou Fernando Tulio, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – SP. “Não é algo simples, mas existem instrumentos e mecanismos, que não são utilizados. Um exemplo claro é que o auxílio-moradia de um juiz vale R$ 4 mil e o oferecido à população mais vulnerável dessa cidade é de R$ 400, que mal paga um quarto sem janela na Cracolândia. Então a diferença de lógica na forma de conduzir a política habitacional é evidente”.

“E a concentração de renda fundiária urbana: apenas 1% dos proprietários de terra concentra 50% do valor de todos os imóveis da cidade”, concluiu Fernando.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook

Comments are closed.