Setores da economia dão sinais de melhora, mas economista não vê méritos do governo

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Por André Henrique

Governo federal comemora resultados, mas, para economista, crescimento em setor específico da indústria e superávit comercial das exportações não são consequências de medidas econômicas estruturantes do governo 

O governo federal comemorou os resultados positivos da indústria e do comércio exterior como uma tentativa de amenizar os efeitos negativos da crise política que assombra o Planalto e que poderá custar o mandato do presidente da República.

De acordo com a Fenabrave, o primeiro semestre deste ano foi de recuperação para o mercado de “veículos novos” no Brasil, com aumento de 3,65% nas vendas. As vendas de “veículos usados” cresceram 9,78%.

A associação que representa os concessionários informou ainda que, entre janeiro e junho, foram emplacados no país quase um milhão e vinte mil unidades de carros, comerciais leves (picapes e furgões), caminhões e ônibus. No mesmo período de 2016, o número ficou próximo a milhão.

A maior alta de vendas foi de carros de passeio e comerciais leves, que tiveram uma elevação de 4,25% no primeiro semestre. O único diagnóstico ruim é quando se leva em conta os veículos pesados, ônibus e caminhões, que juntos registraram declínio de 13,8%, apesar de melhora no final do semestre.

Resta saber se esse crescimento é fruto de medidas estruturantes da equipe econômica do governo federal ou se são fruto de causalidades conjunturais.

Para o economista Marcos Henrique Espírito Santo, redator do Boletim de Conjuntura Econômica do Depe – Grupo de Pesquisas em Desenvolvimento e Política Econômica da PUC-SP, “definitivamente não há medidas estruturantes para o crescimento sendo tomadas”.

O economista destaca que o resultado positivo da indústria em maio divulgado 02/07 foi puxado por automotores para exportação, mas o crescimento é nulo quando considerados máquinas agrícolas e caminhões. Marcos Henrique destaca que foi feita uma revisão no dado da indústria de abril (de + 0,6% para + 1,1%), o que não permite mensurar de maneira mais precisa o que realmente está havendo, sobretudo após a revisão, segundo ele, atabalhoada feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nas pesquisas de comércio e serviços.

Outro dado comemorado pelo governo federal é o da balança comercial que teve resultado positivo no mês de junho. As exportações chegaram a representar mais de sete bilhões de dólares, esse foi o melhor resultado para o mês desde 1989, o que contribuiu para que o segundo trimestre deste ano fechasse com salvo positivo de quase 22 bilhões de dólares. As informações foram divulgadas na segunda-feira (3), pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Os destaques foram das vendas de petróleo em bruto, que subiram 114%, a dois bilhões de dólares, em relação a junho de 2016. O minério de ferro teve crescimento de 32, 2%, a 1,4 bilhões de dólares. O grão de soja subiu 18,2% , a 3,4 bilhões de dólares. Já em relação à importação, apesar do embargo da carne bovina in natura do Brasil para os Estados Unidos mês passado, a comercialização do produto subiu 16,6%, a 422 milhões de dólares, em junho, comparado ao mesmo período de 2016.

De acordo com a análise do economista Marcos Henrique Espírito Santo, o Brasil, ao longo das últimas décadas, abriu mão da indústria e voltou a exportar bens de menor valor agregado, em grande medida, commodities, portanto, o bom resultado da balança comercial é derivado dessa pauta e de uma excelente safra agrícola que se observa no início do ano, o que inclusive ajuda a conter a inflação. Além desses fatores, as taxas de câmbio média nos anos de 2015, 2016 e 2017, são consideravelmente favoráveis à exportação em relação ao que observado em anos anteriores, conclui.

O economista afirma que a ideia de que o ajuste nas contas públicas iria melhorar a confiança do mercado e retomar o investimento deu errado, pois as projeções para o crescimento do PIB são baixas e a arrecadação do Estado caiu (0,96% em termos reais em comparação de maio de 2017 com maio de 2016), apesar do contingenciamento de R$ 42 bilhões no início do ano. Marcos Henrique ressalta que o PIB do primeiro trimestre foi influenciado pela agropecuária e sua safra recorde, não por medidas estruturantes do governo. Para ele, o conjunto de reformas (PEC dos gastos, trabalhista e previdenciária) não traz efeito de curto prazo para a recuperação do crescimento e do emprego, ao contrário, produz prejuízos sociais no longo prazo.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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