Sheherazade relata ameaças de morte e processos por comentar massacre em prisão do Pará

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Agentes penitenciários realizaram milhares de críticas em um vídeo sobre o massacre de Altamira.

Por Rafael Bruza

A jornalista Raquel Sheherazade, do SBT, no vídeo “Monstros contra Monstros”, que gerou revolta em agentes penitenciários, em agosto.

Ao reativar sua conta de Twitter, na última terça-feira (16), a jornalista do SBT, Raquel Sheherazade, relatou que se afastou da rede social por ter recebido ameaças de morte, pressões em seu local de trabalho e processos judiciais de agentes penitenciários, em agosto, por conta de seus comentários críticos sobre o massacre de presos de Altamira, no Pará.

“Um dos motivos por eu ter deixado esta rede foram algumas ameaças de morte que sofri após denunciar o que até as pedras já sabem e o que o MP e a OAB agora tb denunciaram: os maus tratos e torturas que acontecem dentro dos presídios”, conta a jornalista, em um tuíte.

O Independente encontrou um comentário ofensivo dirigido a Sheherazade no vídeo “Monstros contra Monstros”, publicado no Youtube dia 31 de julho.

“Vaca desgraçada! Tem que rodar dentro de uma cela com 30 estupradores com faca e sucho pra sentir na pele o que passamos! Filha da puta espero muito que seu castigo venha em breve!”, afirma um internauta identificado como Aguinaldo Ribeiro, em comentário que recebeu 33 curtidas.

Comentário feito no vídeo

A jornalista ainda relata que agentes penitenciários foram ao SBT para pressioná-la pelo comentário.

“A intimidação veio por todos os meios. Na forma de mensagens anónimas, com ameaças a minha vida e de meus filhos, ameaças no meu próprio trabalho, e tb na forma de ações pedindo, na Justiça que eu pague indenização – dinheiro – aos ‘ofendidos’”, conta Sheherazade.

Massacre em Altamira

No vídeo “Monstros contra Monstros”, que gerou revolta em agentes penitenciários e internautas, Sheherazade comenta os assassinatos de 62 detentos no Centro de Recuperação Regional de Altamira (PA), que ocorreu em julho, durante uma rebelião.

O massacre se tornou o segundo maior da história em presídios brasileiros, situando-se apenas atrás do caso do Carandiru, em São Paulo, 1992, quando 111 foram assassinados por policiais após uma rebelião.

A publicação da jornalista no Youtube sobre o caso teve mais de 300 mil visualizações, 17 mil deslikes e milhares de comentários críticos.

Nos comentários, agentes penitenciários acusam Sheherazade de generalizar críticas e tratar todos os profissionais da categoria como “monstros”.

O comentário da jornalista, no entanto, emite opiniões principalmente contra o ministro da Justiça, Sergio Moro, o Estado brasileiro e o presidente da República, Jair Bolsonaro.

Sobre agentes penitenciários, Sheherazade diz apenas que permitem entrada de drogas e armas em presídios.

“Todo mundo sabe que armas e drogas circulam livremente sob o nariz e o olhar do Estado. E com a conivência dos agentes prisionais. As rebeliões não são sequer investigadas. Os agentes públicos sequer são punidos”, diz a jornalista, no vídeo. “Os presídios são masmorras, depósitos de gente e criadores de criminosos: detentos e não detentos, se é que vocês me entendem”, afirma a jornalista, no vídeo.

Cerca de dois meses depois da publicação do vídeo e dos ataques, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou casos de tortura em presídios do Pará, relatando episódios de violência física, que incluem perfuração com pregos e penetração anal forçada. 

Sindicato incitou críticas ‘respeitosas’

Em agosto, pouco depois da publicação do vídeo “Monstros contra Monstros”, o Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo (Sifuspesp) divulgou nota em seu site alegando que “Sheherazade critica atuação dos agentes penitenciários e será processada”.

“Vamos à Justiça e também vamos às redes sociais respeitosamente explicar à Rachel Sheherazade que não se trata de ‘monstros contra monstros’, mas de seres humanos como ela própria, com erros e acertos em suas trajetórias de vida. Que vença o melhor”, disse o sindicato, na nota da época.

A nota do Sifuspesp ainda convida internautas a se manifestar de forma “respeitosa” contra Sheherazade.

“Além das medidas jurídicas, convidamos a categoria a se manifestar nas redes sociais da jornalista, mas ao contrário da forma como ela agiu, vamos fazer nossas críticas de maneira respeitosa sem deixar de expressar nosso ponto de vista pelo Twitter https://twitter.com/RachelSherazade citando @RachelSherazade, na fanpage https://www.facebook.com/rachelsheherazadejornalista/ ou diretamente está postado o vídeo no YouTube https://youtu.be/Ppt9vSkGA04”,

O Independente procurou a assessoria do Sifuspesp para questioná-la se o processo de fato foi movido, como a nota afirma, e se os responsáveis têm consciência de que a jornalista recebeu ameaças de morte e pressões em seu trabalho na repercussão do caso.

Mas não foram enviadas respostas até o momento – o espaço segue aberto, caso queiram se posicionar.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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