A simpatia de jornalistas da Grande Mídia pela nova presidente do STF, Cármen Lúcia

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Em 2015, a nova presidente do STF recebeu um prêmio do Grupo Globo que homenageou Sérgio Moro na edição anterior; agora, em 2016, jornalistas do oligopólio da imprensa demonstraram simpatia com declarações de Cármen Lúcia.

Opinião – Por Rafael Bruza

A então ministra do STF e recém-empossada, presidente do Supremo, Cármen Lúcia, entre o diretor de redação do jornal O Globo, Ascânio Seleme, e o vice-presidente do Grupo Globo João Roberto Marinho / Foto – Reprodução
A então ministra do STF e recém-empossada, presidente do Supremo, Cármen Lúcia, entre o diretor de redação do jornal O Globo, Ascânio Seleme, e o vice-presidente do Grupo Globo João Roberto Marinho / Foto – Reprodução

Nesta segunda-feira (12), a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia assumiu a presidência da Suprema Corte do Brasil, substituindo o anterior presidente, Ricardo Lewandowski. É a segunda mulher a presidir o STF em 125 anos. A cerimônia de posse, feita no próprio STF, teve presença do presidente Michel Temer, dos ex-presidentes Lula e José Sarney, além do cantor Caetano Veloso, que tocou uma música durante a posse. O ministro do STF, Dias Toffoli, foi empossado como vice-presidente da Corte.

Os discursos dos juristas, no geral, foram críticos à classe política. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot (que designou o filho de um deputado tucano como vice-procurador-geral da República na semana passada) citou nominalmente a Operação Lava a Jato e disse que a classe política tenta prejudicar os responsáveis pelas investigações.

O ministro do STF, Celso de Melo, também fez um discurso bastante duro contra a classe política e citou uma fala histórica de Ulisses Guimarães: “não roubar, não deixar roubar e por na cadeia quem roube”.

Cármen Lúcia começou sua fala quebrando o protocolo. Ao invés de cumprimentar a maior autoridade presente na cerimônia, que era o presidente da República, Michel Temer, a nova presidente do STF pediu permissão a para cumprimentar primeiramente “Sua Excelência, o povo”.

No discurso, também disse que é contra o foro privilegiado e afirmou que defende a prisão de réus após condenação em segunda instância.

Considerando as publicações feitas no Twitter, os meios de comunicação e alguns jornalistas da Grande Mídia adoraram as palavras dos juristas contra a corrupção, numa cerimônia que tinha presença do rival, Luiz Inácio Lula da Silva.

A jornalista Eliane Catanhede, do Estadão, que normalmente se posiciona a favor de políticas liberais, fez tuítes sobre a posse de Cármen Lúcia em tom de otimismo.

Jorge Moreno Bastos e Ricardo Noblat, do jornal O Globo, não pouparam tuítes positivos para a nova presidente do STF.

E as comentarista da GloboNews, Renata Lo Prete e Cristina Lobo, citaram o Impeachment e o Mensalão em seus comentários/destaques, respectivamente.

Por vias de comparação, cabe destacar a análise do portal Justificando, especializado em Direito, que falou em proselitismo (a ação ou empenho de tentar converter uma ou várias pessoas em prol de determinada causa, doutrina, ideologia ou religião) na sessão de posse da presidente do STF.

Trata-se do tuíte jornalístico mais crítico à sessão se posse de Cármen Lúcia. E mostra a discrepância de visão entre os jornalistas da Grande Mídia e a análise crítica da realidade.

Mas não é só no Twitter que os jornalistas do Grupo Globo demonstraram simpatia e afinidade com a nova presidente do STF, Cármen Lúcia.

Em março de 2016, a então ministra do Supremo recebeu das mãos do vice-presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho, o prêmio de “Faz Diferença”, onde o conglomerado de mídia homenageia “personalidades do ano de 2015” (é o que mostra a foto em destaque acima).

Trata-se do mesmo prêmio concedido a Sérgio Moro, em 2014, quando o juiz federal era conhecido apenas como “o juiz da Operação Lava a Jato”.

Na época, Moro afirmou que “ficou tocado com as manifestações” (a favor do Impeachment e da Operação Lava a Jato), segundo afirma matéria do G1 da época.

Um ano depois, em março de 2016, Cármen Lúcia recebeu o mesmo prêmio e falou sobre o Impeachment de Dilma Rousseff.

“Eu tenho certeza que a presidente deve ter dito que se não se cumprir a Constituição, é que poderia haver algum desornamento. Não acredito que ela tenha falado que impeachment é golpe, acho que deve ter sido essa a fala dela porque o impeachment é um instituto previsto constitucionalmente. O que não pode acontecer de jeito nenhum é o impeachment ou qualquer tipo de processo político-penal ou penal sem observância das regras constitucionais. Não há um impeachment em andamento ainda, mas não tenho dúvida que, numa democracia, nós, todas as instituições, teremos que observar todas as regras constitucionais, incluindo toda a legislação que se aplica à espécie. Acredito que ela (Dilma)  esteja, primeiro, exercendo o seu direito de expressão. Em segundo, apenas um alerta de que é preciso que se observem as leis da república e isso, com certeza, num estado democrático, será observado”, afirmou Cármen Lúcia.

Obviamente não há ilegalidades na entrega de um prêmio ou na simpatia por um ou outro jurista, um ou outro discurso.

Mas vendo todo esse comportamento de jornalistas do Globo junto com a informação sobre ao homenagem à nova presidente do STF, cabe perguntar: o que esse conglomerado pretende?

Parece uma posição interessada, uma homenagem que quase pede algo de volta, mesmo que retórica ou inconscientemente, algo que inclusive contraria a isenção absoluta da Justiça e a função crítica/independente do jornalismo.

Mas talvez seja só chatice de minha parte. Então deixo com vocês a conclusão desse texto: por que o Grupo Globo homenageia e seus jornalistas têm simpatia por juízes poderosos do país?

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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