‘Simplificando o debate público, o MBL ajudou alas radicais da direita’, diz Fernando Holiday

0

(Assista) Na entrevista, o coordenador nacional do Movimento Brasil Livre também falou sobre as relações do grupo com o Governo de Jair Bolsonaro.

Por Rafael Bruza e Bruna Pannunzio

O Independente esteve na Câmara dos Vereadores de São Paulo, no início de julho, para entrevistar o vereador do Democratas e coordenador nacional do Movimento Brasil Livre, Fernando Holiday. No encontro, Holiday admitiu que o MBL fortaleceu correntes radicais da direita no passado, através das redes sociais.

“O MBL de certa forma ajudou esses grupos quando simplificou o debate político, transformando tudo em meme. Tudo era ‘fulano lacra em cima de ciclano’; ‘Kim humilha ciclano’; ‘Holiday mitou em cima de não sei quem’”, afirma o vereador. “Favorecendo a polarização e simplificando o debate público, o MBL ajudou as alas mais radicais da direita, infelizmente”.

Holiday também disse que o Movimento Brasil Livre procurava colocar limites na relação com estes grupos, na época do Impeachment, quando todos estavam nas ruas contra a então presidente, Dilma Rousseff (PT).

O vereador chegou a dizer que estas correntes radicais “representavam um perigo para a democracia” no período.

“Na época do Impeachment, buscamos separar (o MBL) de forma bem clara desses movimentos mais radicais e não acreditávamos que eles chegariam tão longe. Evidentemente que, mesmo entre eles, existem divisões. Por exemplo, o Bolsonaro nunca apoiou uma intervenção militar, embora fora ideologicamente próximo desses sujeitos. Mas eram grupos muito mais conservadores que a gente e representavam um perigo para a democracia, naquela época, muito grande. Mas evidentemente que a tese deles não ganhou, pois ganhou o Impeachment”.

Questionado se acredita em ideias típicas destes grupos radicais, como a de que o “nazismo é de esquerda”, Holiday disse que existem lados “positivos” nestas alas.

“É uma tentativa de fazer algumas releituras históricas e não acho que todas elas sejam negativas. Evidentemente que o nazismo não é de esquerda, mas também não é completamente de direita. Seria uma terceira via. E por muito tempo foi colocado como extrema-direita. Então acho que nem tudo que vem desses grupos é completamente negativo. Em certa medida, eles ajudam no debate público”, afirmou.

Apoio a Bolsonaro

O vereador do DEM também contou como o MBL tem “intersecções com o Governo Bolsonaro”.

“O fato de termos apoiado o Bolsonaro no final do primeiro turno e continuar apoiando-o em alguns assuntos, como Reforma da Previdência, reforma tributária e armamento, mostra que temos algumas intersecções com ele, em alguns pontos, e principalmente com as medidas do Ministério da Economia de Paulo Guedes”, explica o vereador, que logo apresentou uma ressalva na relação com o Executivo Federal.

“Nosso problema não é nem com o Bolsonaro, mas com uma ala específica do Governo, ligada ao Olavo de Carvalho, que tem o Ernesto Araújo, o ministro da Educação, Weintraub, e o outro, nem me fale, o Vélez” – diz o vereador, em tom de sarcasmo. “Com essa ala específica do Governo temos problemas muito sérios. Divergências radicais. O Bolsonaro em si está dividido entre Paulo Guedes, Sergio Moro e os militares, que formam essa ala consciente, e Olavo de Carvalho e sua turma, que são os radicais malucos”.

Brigas em manifestações

Os atritos entre o MBL e bolsonaristas se intensificaram após as manifestações de 26 de maio, quando o grupo liderado por Fernando Holiday e outros políticos se recusou a participar das manifestações pró-Bolsonaro, alegando que havia manifestantes pedindo fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional.

O movimento voltou a ser organizador dos protestos a favor de Bolsonaro do dia 30 de junho, mas, mesmo assim, ocorreram casos de agressões entre membros do MBL e grupos bolsonaristas, como o Direita São Paulo – ligado ao deputado estadual do PSL de São Paulo, Douglas Garcia – e o Direita Duque de Caixias, no Rio de Janeiro.

“Isso é resultado de grupos que não suportam discordância”, argumenta Holiday. “Os grupos próximos do Governo e que defendem Bolsonaro hoje não admitem nenhum tipo de discordância. E se você não concorda com tudo que o Governo faz, você não é mais considerado de direita e tudo mais. Isso resultou na última agressão que o MBL sofreu em São Paulo e no Rio de Janeiro”.

O vereador, porém, demonstra tranquilidade em relação a oposição que o MBL pode sofrer destes grupos radicais.

“São grupos bem isolados e o Governo está completamente dividido. Se de um lado tem um Direita São Paulo nos atacando na Avenida Paulista, de outro lado tem o ministro Sergio Moro mandando áudio para nós pedindo desculpas por possíveis ofensas e que respeita a história do movimento. Também tem um Paulo Guedes, que conta com nossa ajuda na defesa da Previdência. O Kim é um dos que mais defende a reforma. Então tem uma divisão muito clara no Governo e os ataques que vem desses grupos não nos atinge”, conclui.

Áudio de Moro

Por último, Fernando Holiday confirmou que Sergio Moro enviou um áudio ao MBL pedindo desculpas, depois que uma mensagem vazada pelo site The Intercept Brasil mostrou o ex-juiz chamando alguns membros do grupo de “tontos”, em conversa privada com o procurador da Operação lava Jato, Deltan Dallagnol.

“Ele não sabe dizer se usou exatamente aqueles termos e é difícil dizer se as mensagens foram adulteradas ou não, mas de qualquer forma ele enviou um áudio, que foi divulgado para todas as lideranças do MBL, pedindo desculpas por possíveis ofensas e dizendo que sempre respeitou nossa história e continua respeitando. Então o que vale é o que ele disse no áudio para nós”, concluiu Holiday.

O vereador de São Paulo e coordenador do Movimento Brasil Livre, Fernando Holiday (DEM-SP)

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook

Leave A Reply