SOBRE O ÚLTIMO DIA

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        Texto/Ilustração: Ygo Ferro

  “Se o mundo fosse acabar me diz o que você faria?” – perguntam Billy Brandão e Paulinho Moska na música “O último dia”. 

          É com essa dúvida um tanto filosófica e outro tanto provocativa, em pertinente momento delicado, que começo mais um texto sobre música aplicada à realidade ou à imaginação absurda da minha cabeça. E como é de se supor, devido a tantos acontecimentos estarrecedores, nosso exercício entre estas palavras de pessoa assustada é imaginar quais seriam os últimos atos humanos, caso acontecesse realmente o tão temido último dia. 

          Vamos imaginar que essa pandemia pode ser um tipo de anúncio de fim de mundo. Neste contexto eu pensaria que as pessoas em seus momentos finais, talvez gozando de saúde, discernimento e um pouco de enlouquecia, realizariam as mais diversas vontades de satisfação pessoal, incluindo desejos peraltas e até inocentes como sugere a música “… E o mundo não se acabou” de Assis Valente, na irreverente voz de Carmen Miranda. No entanto, essas possibilidades que desenhei na minha cabeça estão tão datadas quanto o conteúdo da composição do Valente. 

          Explico melhor: nos últimos dias que –  imaginando – podem ser estes dias, as loucuras são outras. Antes do mundo explodir ou extraterrestres dominarem a terra, as últimas realizações humanas seriam bem curiosas (para não usar outro adjetivo mais enfático). Os moradores de alguma cidade do país, em seus últimos atos, como portadores de um vírus mortal, poderiam contaminar toda sua comunidade através de protestos contra a doença, causando mais mortes e o adiantamento do apocalipse. Não só isso, mas também ir à porta de hospitais causar balburdia atrapalhando a recuperação dos  enfermos e o trabalho dos profissionais da saúde (uma experiência estarrecedora só de pensar). Seria mais confuso se indivíduos dessa mesma turma agredissem médicos e enfermeiros que lutam em desespero para garantir um mínimo de assistência aos doentes. A intensidade dessa ação aumentaria mais se nessa provocação tivessem caixões cenográficos e dancinhas cultuando a morte e a ridicularização dos que foram com ela. Poderiam também usar seus carros do ano para bloquear a passagem de ambulâncias, e no meio da via paralisada gravar um vídeo de classe alta com informações falsas de que caixões estão sendo enterrados vazios.  

          Também seria de praxe atrapalhar a vida de todos, caso você fosse o líder de algum lugar do continente. Talvez fosse prazeroso para esse individuo zombar das pessoas diante a catástrofe, espalhar doenças de forma indiscreta, usar mentiras para encobrir sua própria incompetência, fazer trocadilhos infames com o desespero dos outros, deturpar o trabalho e os cuidados de quem se importa, além de – a todo custo – entre discursos idiossincráticos – alimentar seu próprio ego e enganar pessoas cegas de ódio. Sem esquecer de mencionar os verbos “mentir”, “desprezar” e “ameaçar” – palavras em alta nestas últimas ações de fim de mundo. 

          Sendo proprietário de uma fazenda, de um império, de uma indústria ou de uma vendinha na esquina de um bairro popular, sendo eu um autor de textos dramáticos cheios de suspense e mortes, imaginaria que estes proprietários em nome de uma seita neo-religiosa-capitalista-hipócrita, obrigariam seus colaboradores, funcionários, peões e vassalos a humilhação de ficar de joelhos perante um imóvel fechado, rezando e pedindo pela morte, caso voltem a trabalhar no meio do fim do mundo. Não é preciso esclarecer que essas pessoas humilhadas não estão ali por vontade própria. Penso que foram coagidas, ameaçadas pelos “donos” dos seus empregos. E onde estão os proprietários dessas pessoas expostas na rua, ajoelhadas, rezando, pedindo por algo que nem sabem ao certo? Duas possibilidades: trancados em suas residências (a melhor das hipóteses) ou estão causando tumulto na rua entre candidatos a ditadores e pessoas desesperadas à beira do colapso. Em ambos os casos os proprietários querem dinheiro, muito dinheiro e mais dinheiro e também poder de brinde. Nenhum prejuízo financeiro é bem vindo – somente prejuízo humano.

          E no último dia, cansado de toda essa balbúrdia no planeta, um vassalo (braço de ferro de um candidato a ditador) se revolta, sai das dependências do palácio gritando para todos que não concorda com o fim do mundo, e passa oito horas da sua vida na delegacia de assuntos comprometedores denunciando o fraco desempenho do seu ex-patrão, que tem como bicho de estimação uma misteriosa e mitológica arma de fogo calibre 380 em formato de pênis. O candidato a ditador tem um súbito ataque de desespero e na coletiva de imprensa em cadeia nacional (organizada com muita pressa, esmero, máscara, ressaca e meias) confunde todas as leis da lógica e decreta oficialmente que é inocente, afirmando humildade que tem um filho macho garanhão de pura raça e uma piscina fria.

          Encerrando esse meu ensaio de imaginação e suposições, entre pessoas desesperadas, doentes, zumbis, gente sem noção, egos inflamados, ataques alienígenas, ataques terroristas, ataques religiosos, ataques neoliberais, com asteroides caindo na terra e fake news, ou melhor, notícias falsas (porque ainda escrevo em português), pergunto: o que você faria se só te restasse esse dia? Pense bem sobre seus últimos atos. 

Vejam e ouçam: 

          Feliz fim de mundo!

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