Tabata Amaral e João Dória

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Por André Henrique

É verdade que temos por aí esquerdas sectárias que impossibilitam a criação de consensos e a conquista de corações e mentes para o progressismo. Dúvida?
É só ver a dificuldade de as esquerdas construírem para fora do Congresso um movimento virtuoso contra as medidas impopulares do governo Bolsonaro, especialmente a reforma da previdência. 

A esquerda perdeu o protagonismo das ruas e sequer consegue unidade mínima entre seus aparelhos (partidos, movimentos sociais, sindicatos e coletivos em geral) para gerar mobilização e debate nas ruas. Muito dessa dificuldade passa pela intransigência ideológica. Cada vez mais o que se vê nas esquerdas são guetos. Se a esquerda não consegue dialogar entre si, imagine para fora (com os diversos segmentos da sociedade).

Realmente não é fácil criar consensos em tempos de fragmentação social. Mas necessário se a esquerda não quiser cair na irrelevância como acontece em outros países em que a política foi criminalizada e o mercado a manipula elegendo caricaturas. 

Na disputa por corações e mentes não se avança sem realizar o diálogo para além dos aparelhos e dos guetos. E para além dos rótulos. Pra ficar em um exemplo: nem todos que votaram em Bolsonaro são fascistas. 

A liderança de esquerda virtuosa é aquela que conquista o eleitor do Bolsonaro que votou nele não por ser um direitista convicto mas por outras razões difusas. A liderança de esquerda incompetente é aquela que se nega a conversar com uma comunidade heterogênea por pré-conceber que a mesma é intratável por ser conservadora ou outro rótulo que o valha. A direita agradece. 

Tabata Amaral não está errada em ter audiências com chefes de estado e lideranças de direita. Sem essas reuniões, não dá pra encaminhar agendas minimamente progressistas. Mas precisa fazê-lo de modo republicano e discreto. Tirar selfie com direitista que semeia ódio contra a esquerda não faz sentido, simples assim. 

O governador João Dória construiu a sua imagem em cima de narrativas beligerantes contra a esquerda; ao se permitir fotografar ao lado dele Tábata Amaral trouxe para si a carga anti-esquerdista que o tucano transmite. Seria o mesmo que tirar uma foto com Jair Bolsonaro e publicar no Facebook. Captaram o meu ponto? Entenderam o peso que um gesto público tem em política? 

Se a seu lado estivessem FHC e até Geraldo Alckmin o efeito teria sido negativo mas infinitamente inferior. Estamos falando do governador de SP e da figura ao lado de Bolsonaro mais justificadamente odiada pelas esquerdas. E a selfie foi tirada dias depois de ela sofrer questionamentos a respeito de seus financiadores. Erro político crasso. 

Ainda está em tempo de Tábata Amaral corrigir a rota. A jovem acerta em tentar ampliar os horizontes da esquerda, mas erra na forma. A pedetista não pode menosprezar suas bases, ou terminará como Heloísa Helena e Marina Silva. As duas perderam relevância por agirem ideologicamente de modo confuso. 

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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