Técnico português comenta as diferenças entre futebol profissional e amador

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Tiago Albuquerque Freire ainda disse que acompanha o trabalho de treinadores europeus e de Jorge Jesus, técnico do Flamengo, entre os brasileiros.

Por Fabrício Rocha – edição de Rafael Bruza

A página Último Apito e o Independente traçaram os caminhos inversos das caravelas de Pedro Álvares Cabral, e foram até Portugal, terras de cores, sabores e de muito futebol, para entrevistar o ilustre treinador português Tiago Albuquerque Freire, que trabalha como observador de adversários e da sua própria “equipa”, a UD Vilafranquense.

O time disputa a Segunda Liga Portuguesa. Tiago, como treinador adjunto nos sub-19 do 1° de Dezembro, tem o objetivo de subi-lo aos campeonatos nacionais, como contou nesta entrevista concedida a nosso navegador luso-brasileiro, Fabrício Rocha.

(Fabrício Rocha), primeiramente em nome da equipe da página Último Apito e do jornal Independente agradecemos a honra desta entrevista, e para começarmos, de onde veio seu interesse de ser técnico de futebol, apesar de ser jovem, você teria idade para ser jogador, isso já foi um sonho pra você?

(Tiago) Em primeiro lugar, quero agradecer ao jornal Independente e a página Último Apito, na pessoa do Fabrício Rocha, pelo interesse demonstrado em fazer esta entrevista para dar o meu ponto de vista sobre algumas questões que considero pertinentes no futebol atual.

Em segundo lugar, importa referir que todas as minhas respostas às suas perguntas serão apenas a minha opinião em relação aos vários temas, de acordo com as experiências que tenho vindo a desenvolver e em relação ao futebol europeu, especificamente em Portugal, que sei que é algo diferente do Brasil, seja nas condições que temos, à quantidade de atletas dos escalões mais jovens ou mesmo em relação à forma como se vê o jogo, sendo que neste último aspeto, tenho acompanhado alguns treinadores brasileiros através das redes sociais e cada vez mais vejo a serem criadas algumas tendências que eram na sua maioria, ou quase exclusivamente, europeias, como é o caso do jogo de posição.

Em relação à sua pergunta, desde criança que vivo do futebol. Desde que tenho memória, lembro-me de estar sempre com uma bola atrás. Andava com uma bola para todo o lado, passava tardes inteiras a jogar futebol com os meus amigos num campo que tínhamos no nosso bairro ou quando eles não podiam, jogava sozinho em frente à minha casa.

Mesmo quando ia para a escola, ia com bola e os intervalos também serviam para jogar à bola. Basicamente, estava sempre a jogar futebol! Nessa altura, o meu maior sonho era ser jogador de futebol. Não me imaginava a fazer mais nada. Quando comecei a ficar mais velho, e a perceber que se calhar não ia ter capacidade para jogar futebol de forma profissional, coincidiu com a altura em que entrei para a escola secundária, e lá conheci o meu grande amigo Rui , e em conjunto, começamos a olhar para o futebol não só como atletas, mas principalmente para a área do treino e da observação.

Foi aí que se começou a desenvolver à vontade e necessidade de compreender o jogo. Fizemos um curso de análise da performance no futebol, tínhamos 17/18 anos, na Faculdade de Motricidade Humana, com oradores de grande nível nacional e internacional. Nessa altura já tinha a certeza que era na parte do treino que eu queria seguir o futebol, porque não conseguia imaginar a minha vida de outra forma que não fosse nesta área. Foi sempre a área que me deixou mais apaixonado.

(Fabrício Rocha) Apesar de você ainda estar iniciando a sua carreira de treinador, já houve alguma desconfiança ao seu respeito como técnico?

 (Tiago) Se houve, nunca senti. Muito pelo contrário, sempre tive a sensação que os jogadores compreendem a minha mensagem, preocupam-se em saber mais e recorrem muitas vezes para tirar dúvidas. Acho que até pela proximidade de idades, há uma ligação grande que permite haver maior abertura no momento de exporem as suas dúvidas. Conseguem ser mais descontraídos.

No entanto, também sabem que no momento de trabalhar, a exigência é sempre máxima, mas procuro ter a sensibilidade de perceber alguns momentos de maior tensão para ajudar a descomprimir através de algum gesto ou piada para retirar tensão de um ou outro jogador.

(Fabrício Rocha) Como surgiu a sua oportunidade de você iniciar sua carreira como treinador?

(Tiago) Primeiro tive a ideia que a melhor solução seria tirar o curso de treinador pela faculdade, até porque a faculdade onde entrei, faculdade de Motricidade Humana, de onde saíram inúmeros treinadores que hoje dão cartas ao mais alto nível do futebol mundial, entre eles, um dos grandes impulsionadores das grandes melhorias do treino e do jogo, José Mourinho.

Mas depois comecei a achar que o tempo que teria de estar na faculdade, pelo menos 3 anos para tirar o nível UEFA C era muito, e iria ser muito difícil de conciliar com o trabalho, por isso decidi tirar o nível pela Associação de Futebol de Lisboa. E aí tive a ajuda de uma pessoa que estarei eternamente grato.

Quando comentei que queria fazer o curso, prontamente disse que sabendo que era o meu sonho e a importância que tinha para mim, me ajudava em tudo o que precisasse. Dou muito valor a gestos, foi algo que me marcou e por isso tenho um grande sentimento de gratidão, não só por isso, claro, mas também. E graças a Deus tenho tido apoio de muita gente nesta luta pelo meu sonho. Depois, a minha primeira experiência como treinador adjunto, foi nos sub 16 do Sintrense, que me ajudou a ter o meu primeiro contato com o treino na vertente de treinador, que é totalmente diferente de jogador.

Como Treinador, chegas ao treino, fazes o que te é pedido, tentas compreender para executar da melhor forma possível, mas depois do treino vais para casa descansar.

Como jogador, antes do treino tens um planeamento que deve ser feito, no treino tens de ser meticuloso com os timings de troca e montagem de exercício para rentabilizar ao máximo o tempo de treino e para que os jogadores estejam o máximo tempo possível em exercício e depois do treino, novamente uma análise do que foi a unidade de treino, o que correu bem, o que correu menos bem, prioridades a melhorar, não só os jogadores, mas também enquanto equipa técnica. Um treinador mesmo quando está em casa está muitas vezes preocupado com o treino e com o que pode melhorar. É difícil de desligar.

(Fabrício Rocha) Qual a diferença entre futebol amador e profissional?

 (Tiago) Vou tentar responder a esta pergunta dividindo-a em condições de trabalho, volume de trabalho e vida familiar.

Em relação às condições de trabalho, no futebol profissional tens condições que te permitem controlar mais e melhor a qualidade do teu treino e consequentemente a qualidade do teu jogo. Apesar de teres uma série de coisas que tens de prestar atenção, consegues ter condições para te preocupares mais acima de tudo, com o treino.

Do futebol amador, muitas vezes tens de que ir buscar um jogador a casa, tentar coincidir o teu horário para permitir ir buscar jogadores. Tens de tentar perceber, no nosso caso, como são os horários deles da escola, os dias em que vêm mais cansados porque tiveram prova física e temos de adaptar o treino para determinado jogador/jogadores. Ao fim de semana ter atenção como vão para o jogo, mas não controlamos o que comem. São situações mais delicadas, mas mesmo assim, tentamos ser o mais profissional que o contexto nos permite. Também fazemos análise de vídeo do próprio jogo, por vezes análise do adversário, planeamento dos treinos sempre de acordo com a ideia de jogo e dia da semana especifico. No futebol profissional há vários gabinetes que permitem que o treinador se liberte de algumas coisas, mas tem de estar sempre em cima de tudo para saber se corre bem.

Em termos de volume de trabalho, não há comparação. O volume de trabalho no futebol profissional é muito maior, o risco do erro é muito maior. Os jogadores passam mais tempo no clube. No futebol amador, existe menos preparação de tudo, porque é sempre um part time.

Ao nível familiar, o futebol profissional, apesar de teres maior volume de trabalho, acaba por ser muito melhor. Porque apesar de teres muito trabalho em relação ao futebol, em primeiro lugar, fazes só aquilo que mais gostas, por isso, a disposição é sempre melhor.

Depois, o treino é de manhã. Mesmo que fiques a trabalhar no clube, tens a certeza que o final da tarde/noite, tens disponibilidade para estar com a tua família. Obviamente que podem haver excepções de um dia mais atarefado, mas globalmente consegues dar mais atenção. No futebol amador, tens o teu trabalho, vais fazer algo com o qual não te identificas tanto, depois chegas ao final do teu dia de trabalho, e em vez de ires para casa descansar com a tua família, vais para o treino.

Esta época isto não vai acontecer porque vamos treinar às 17h30, mas na época passada, várias vezes o treino só acabava às 22h30, e entre tomar banho e discutir o que foi o treino e mudar alguma coisa para o treino a seguir, ir para casa, pelo meio ainda levar jogadores, muitas vezes chegar à meia noite a casa era bom.

Quando no dia a seguir tens de acordar às 6h da manhã para ir trabalhar. Depois aos fins de semana, tens o teu jogo, que te ocupa ou o dia todo ou grande parte dele, e no outro dia, ver mais um jogo para aprender com os outros treinadores.

Não é fácil para quem vive isto, nem para quem está conosco, que apesar de querer o nosso maior sucesso, não vive da mesma intensidade que nós. Não é fácil gerir tudo isto. E no final do dia tens de somar todos os pontos e perceberes as tuas prioridades. E neste ponto talvez seja onde eu aprendi mais a viver no futebol, que é, nada é tão importante como a família.

Nem mesmo o futebol. Porque é onde tu te refugias de tudo. Onde as vitórias sabem melhor, onde as derrotas custam menos, onde as fases menos boas passam mais rápido. Não há nada melhor que chegar à casa e ter o calor da família, sem dúvida que é o mais importante que temos na vida.

Se um dia, a qualquer pessoa que vive no futebol, acontecer algo e não puderem continuar ligados ao futebol, quem vai ajudar é a família. Já cometi alguns erros neste sentido, ás vezes não saber priorizar, mas graças a Deus que aprendi com isso e hoje dou muito mais prioridade à família e aqui incluo o meu cão. Estão em primeiro lugar.

(Fabrício Rocha) Sendo ainda jovem como treinador de futebol, futuramente comandar a seleção portuguesa está inclusa em suas metas?

(Tiago) Acho que treinar a sua seleção nacional faz parte dos objetivos de qualquer treinador de futebol. É um motivo de grande orgulho ter a bandeira ao peito e cantar o hino. Se pela televisão ou no estádio a emoção já é grande, sendo no relvado a emoção será ainda maior.

Mas tudo ao seu tempo, neste momento o meu objetivo passa por aprender com toda a gente. Ainda tenho muitos anos de futebol pela frente, e quem sabe um dia. Hoje quero disfrutar de aprender com quem trabalho que são grandes profissionais, aprender quando vejo um jogo. E tem de ser sempre assim.

O futebol está sempre a ser reinventando, não é estanque. Por isso, nunca vou dizer que já sei tudo, às vezes aprendemos com quem menos esperamos. E o futebol não é só a componente tática. Como diz o professor Manuel Sérgio “Quem só de futebol sabe, nem de futebol sabe”.

O futebol vai muito mais além do que os “chutos na bola” há várias componentes a ter em conta para se chegar ao jogo de futebol. Componentes técnicas, táticas, humanas, o contexto social, o contexto do clube e os valores e princípios, os gabinetes de observação e análise, fisioterapia, recuperadores físicos, etc, um sem fim de aspetos que há que ter em conta para se chegar ao momento do jogo de futebol, o momento que o adepto vê é o culminar de inúmeras situações que o treinador teve de gerir e enfrentar para chegar àquele momento.

E em relação a tudo isto, aproveito para citar uma frase que para mim, faz todo o sentido, a primeira vez que li, tinha sido proferida pelo Andrea Pirlo que diz “Os que acham que o futebol é jogado com os pés, são os mesmos que acham que o xadrez é jogado com as mãos”.

(Fabrício Rocha) Quais técnicos nacional e mundial você admira e se inspira para a sua carreira como treinador?

(Tiago) Sigo muitos treinadores, uns fascinam-me por uns aspetos, outros por outros. Costumo dizer, principalmente aos meus amigos, quando falamos de um determinado treinador que não lhes agrada pela sua forma de jogar, que não podemos olhar só para isso. Um treinador é mais do que apenas a forma como joga, apesar de isso ser o que se vê logo!

Há muitos tipos de futebol. Há treinadores que não aprecio tanto a forma como jogam, mas mesmo dentro dessa forma de jogar, têm características que gosto, apesar de na sua globalidade não me identifico tanto. Mesmo às vezes apenas na forma como mostram a sua gestão ou pela sua coragem na aposta de jogadores mais jovens.

Além destes dois com quem trabalho diretamente, Ricardo Cunha e Filipe Moreira, há mesmo muitos que sigo, mas se tiver de escolher um top 5 de treinadores portugueses que sigo, neste momento, com mais atenção seriam Renato Paiva, Paulo Fonseca, Bruno Lage, Nuno Espírito Santo e Luís Freire.

Todos estes têm uma qualidade incrível, mas há muitos mais, destaco estes porque têm sido os que tenho mais visto jogos e conferências de imprensa. Não coloco aqui José Mourinho porque neste momento não está no ativo, mas é um treinador que sempre segui com muita atenção. Ao nível internacional, neste momento, sobretudo Guardiola, Klopp e Sarri. No Brasil, tenho seguido principalmente o Jorge Jesus.

(Fabrício Rocha) Como está a temporada esse ano?

 (Tiago) Está época vou estar como treinador adjunto dos sub19 do 1° Dezembro, com o Ricardo Cunha que considero ser um treinador de grande nível, com quem tenho aprendido imenso ao longo destas épocas que temos trabalhado juntos, basta ver pela qualidade de jogo da nossa equipa para se perceber a qualidade do Ricardo e do resto da nossa equipa técnica, neste momento composta por mim como treinador adjunto e pelo Rúben Silva como treinador adjunto e responsável pela preparação física. Mesmo sendo um contexto amador, tentamos ser o mais profissionais possível para a nossa realidade.

E também vou estar a trabalhar como observador, tanto de adversário como da própria equipa, na equipa A do Vilafranquense, equipa que disputa a segunda liga portuguesa. Este já é contexto profissional e está a ser o meu primeiro contacto com a realidade do futebol profissional, estou rodeado de excelentes profissionais, boa equipa técnica composta pelo Sérgio Marquês, João Tavares e João Nivea como treinadores adjuntos e José da Paz como adjunto e preparador físico, Carlos Fialho como treinador de Guarda Redes e o treinador, Filipe Moreira é muito experiente, que já deu provas da sua qualidade em vários projetos e conseguiu esta subida de divisão.

Aproveito para lhe agradecer esta oportunidade de trabalhar com ele que está a ser uma experiência muito gratificante em que tenho aprendido imenso. O meu principal elo de ligação é o João Tavares que tem muita experiência de vários contextos nacionais e internacionais e que me tem passado a experiência dele, o know how de trabalhar na observação com um volume de trabalho grande. Comigo no departamento de observação está o Leandro Silva e o Nuno Aguiar, mas apenas ligados à parte da observação do adversário. As expectativas para esta época são muito boas.

(Fabrício Rocha) Para finalizar, gostaria de saber qual seu estilo de jogo preferido que você costuma útil e ao seu ver quais desafios você verá pela frente?

(Tiago) Não vou falar em estilo de jogo, mas sim na forma como eu preconizo o futebol, aquele que mais me identifico. Gosto de uma equipa que no momento de organização ofensiva, através do jogo de posição, saiba ter bola, mas não uma posse de bola só por ter!

Uma posse de bola sempre com um objetivo claro, saber como atrair, por onde explorar quando atrai a uma determinada zona, saiba os momentos em que o adversário está por cima e é preciso ter mais bola para lhes criar ansiedade, nos momentos de aceleração, saber as zonas e como acelerar. Mas nunca tirando a liberdade aos jogadores de decidir, mas por cada decisão que tomem, haver uma sequência lógica.

Os jogadores que não estão a participar no processo ofensivo começam a preparar as referências de transição para o momento de perda. Isto tudo através de dinâmicas de jogo de posição. Na transição ofensiva saber quando acelerar, por onde, com os 3 corredores bem ocupados, mas também saber se não é possível acelerar, manter a bola e voltar a organizar.

Em organização defensiva, equipa compacta, 30/35 metros, com zonas de pressão bem definidas, articulados, seja em bloco baixo, médio ou alto, isto tudo depende da fase e do momento do jogo. Ao nível da transição defensiva, uma boa reação à perda, agressiva, saber se é preciso recorrer à falta, saber identificar as referências de transição, ou se a equipa consegue estar organizada e apenas retardar movimento do adversário para organizar defensivamente.

Nos esquemas Táticos, sobretudo uma estratégia bem definida e agressividade, também com uma estratégia de transição a este momento. Ou seja, para que tudo isto seja possível, é preciso muito treino para que, em todos os momentos, todos os jogadores saibam o que os colegas vão fazer e como têm de agir dependendo de onde a bola entre. Retirar o máximo de aleatoriedade possível ao jogo, para podermos controlar o máximo que conseguirmos.

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