Tudo que o mestre mandar

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Por Leonardo Guedes

Há pouco mais de um mês, tentei fazer contato com um colega do meu primeiro emprego de carteira assinada, um fast-food, isso na primeira metade da década de 2000.

Trabalhar em fast-food, primeira oportunidade laboral para grande parcela dos jovens prestes a encerrarem os estudos no Ensino Médio, não é fácil. Desagradável, em alguns momentos. Jornadas abusivas, assédio moral, desrespeito a muitos direitos trabalhistas.

Com esse colega não foi diferente. Baixa estatura, modestíssimo em sua pouca instrução, evangélico fiel. Um dos alvos preferenciais do bullying dos colegas, em especial dos “éticos” gerentes.

O apelido dele era “Cambaxirra”, nome de um passarinho miúdo como o sua altura. Foi demitido por uma maldade de um dos supervisores gerais da empresa. Respeitei-o pela humildade. Suportava as grosserias, era amistoso com todos (até mesmo com os gays), dava conselhos baseados nas suas leituras constantes da Bíblia.

O tempo passou, mais de dez anos, me formei jornalista e ele, diácono de uma igreja neo-pentecostal. A tecnologia inventou as redes sociais que possibilitaram reencontros e voltando a minha tentativa de contato pelo Messenger, foi o único daquela época para quem enviei a missiva eletrônica, bastante amistosa (dos demais, não quero saber).

Além do Messenger, que às vezes realmente falha na emissão das conversas, também mandei mensagem em comentário na sua página de Facebook, não tinha como não ver. “Olá, Fulano, aqui é o Guedes, que trabalhou com você no McDonald’s. Mandei uma mensagem para você no Messenger, olha lá. Grande abraço!”.

Ignorou as duas. Continuou postando em seu perfil vídeos de pregações histéricas, clamores repetitivos e sem praticidade espiritual, características de algumas congregações do ramo neo-pentecostal. Respondidas de igual maneira pelos seguidores, tanto nos vídeos, quanto nos comentários.
Não nego, fiquei chateado. Bitolação e falta de educação lamentáveis. Deixa ele pra lá, vida que segue, não é mesmo?


Enquanto esta questão pessoal se desenrolava, a cidade do Rio de Janeiro vive dias turbulentos em seu cotidiano, especialmente no político. O prefeito Marcelo Crivella (PRB) vive uma ameaça de impeachment na Câmara dos Vereadores. Já escapou de um, no célebre episódio do “Fala com a Márcia” (suspeita de favorecimento para o eleitorado religioso em atendimentos nos hospitais da rede pública). Conta com maioria legislativa no limite. O sucessor constitucional, o presidente da Câmara vereador Jorge Felippe (MDB), não aparenta interesse voraz em ocupar o cargo, tal como Michel Temer demonstrava durante a defenestração de Dilma Rousseff da presidência da República. (O vice-prefeito, Fernando MacDowell, faleceu em maio do ano passado).

As chuvas que assolam a Cidade Maravilhosa trazem a resposta sobre a avaliação da maioria dos cariocas sobre o desempenho de Crivella na Prefeitura. Não há um bairro, abastado ou carente, que não apresente no mínimo uma devastação. Barra da Tijuca, exemplo de bairro abastado, vem sofrendo com enchentes inéditas em uma de suas principais vias, a Avenida das Américas. Morro da Babilônia, exemplo de comunidade carente, passa por um deslizamento que ceifa a vida de duas pessoas.

“Chegou a hora de cuidar das pessoas”, era o slogan do bispo licenciado durante sua campanha nas eleições municipais de 2016. Mas é visível a olho nu o aumento de moradores de rua precisando de acolhimento. Com sua indefectível fala mansa, até demonstra razão quando explica que encontrou a cidade com problemas financeiros sérios devido à realização da onerosa Olimpíada e alguns “abacaxis” para descascar (a gestão do deficitário Museu do Amanhã, na Zona Portuária do Rio). Mas no geral, é uma inoperância assustadora. Registra a imprensa: nenhum tostão dos impostos foi aplicado em drenagem e contenção de encostas.

Retornando a questão do impeachment, se Crivella livrar-se do afastamento, será por pouco, muito pouco. Continuando a “governar”, o bispo licenciado será candidato à reeleição – algo já comunicado pelo próprio. Postulando para o segundo mandato, o prefeito carioca tem chances razoavelmente significativas de, pelo menos, alcançar o segundo turno. Talvez reeleito. Espantoso, não?


Marcelo Crivella aposta na reeleição porque sabe que conta com uma base eleitoral fiel: as congregações neo-pentecostais, capitaneadas pela Igreja Universal comandada por seu tio, o bispo Edir Macedo. São coesas e numericamente grandes. Com o anúncio da pré-candidatura de Clarissa Garotinho, filha de dois ex-governadores fluminenses também vinculados eleitoralmente aos evangélicos, há a possibilidade de que os votos se dividam. Outros possíveis candidatos também reforçam a aposta do prefeito mesmo com índices altos de impopularidade: a esquerda dividida (PT e PSOL) e ainda muito rejeitada; e a incerteza da continuidade do Governo Bolsonaro até 2020, o que não garante respaldo para alguns nomes (Carlos Bolsonaro? Rodrigo Amorim?).

E aí que voltamos ao diácono a quem eu admirava. Em quem votou em 2016? Em quem votará? Em quem votam os integrantes do seu rebanho? A resposta não é difícil de raciocinar, embora também não seja razoável generalizar e não acreditar que existam evangélicos capazes de pensar e tomar decisões pela própria cabeça (senão esta análise transforma-se em um libelo de preconceito religioso, o que não é minha intenção). Pegue esta célula e multiplique por dez. O bem-estar do município como um todo é secundário. O que importa é botar e manter o “projeto de Deus” no poder.
Tudo o que o mestre mandar.

Lamento pelo meu ex-colega. Lamento mesmo.

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